Lançamento da Agenda Latino-Americana em São Paulo

por Osvaldo Meca e Bruno S. Alface

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foto da ilustração de capa da Agenda Latino-Americana 2013

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Na última sexta-feira, 21/09, participamos do lançamento do Livro-Agenda Latino-Americana Mundial em São Paulo, SP. O evento ocorreu no famoso Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo e sem dúvidas foi uma noite memorável.

O Salão Nobre, que tem sua pompa particular, foi decorado de maneira simples e elegante – com panos, velas e tecidos de diferentes cores – e ficou com um ar mais leve e uma beleza particular de eventos e encontros como esse. Vejam algumas fotos:

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Como é de praxe das cerimônias de lançamento da Agenda, o evento girou em torno de duas temáticas centrais, que eram de proporcionar ao público um entendimento do significado do Livro-Agenda e sua temática para 2013 – ‘’A outra economia’’ – e também de homenagear alguns agentes de transformação social de diferentes lugares.

Os homenageados da noite foram:

  • DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos;
  • Elizabeth Rondon Amarante – Irmã Beth Myky;
  • Escola Projeto Âncora;
  • Irmandade do Servo Sofredor – ISSO;
  • Grupo Pão e Arte;
  • CEEP – Centro de Educação, Estudos e Pesquisas;

Os mediadores da noite, Antonio Carlos Pereira (Tonny) e Liz Mari da Silva Marques, abriram as falas da noite expressando um pouco do signficado da Agenda. Ressaltaram o fato de que, mais do que somente uma agenda ou um livro, ela simboliza um ponto de união entre aqueles que lutam por uma sociedade mais justa, que buscam a verdadeira transformação social. “Uma outra economia” que não seja somente econômica, mas também social, cultural, ecológica e que, sim, é possível, também foi assunto abordado durante o discurso de abertura.

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Antonio Carlos Pereira (Tonny) e Liz Mari da Silva Marques

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O primeiro a ser convidado a subir no palco e prosear foi Frei João Xerri, OP, que também é membro da associação dos Amig@s da Agenda Latino-Americana em São Paulo, responsável pela organização do evento. João destacou o histórico de 22 anos de agenda latino-americana, cuja proposta foi sempre de abrir espaço para ‘’o outro’’, para ‘’uma outra opção’’ diferente das muitas opções que estamos acostumados.

O Frei também fez um resgate em sua memória e compartilhou conosco a resposta que deu a si mesmo quando o convidaram para fazer parte do Projeto da Agenda:

‘’Se eu vivesse na idade média eu faria das tripas coração para conhecer São Francisco, e aqui tem São Francisco. ’’

Durante a noite do evento estávamos munidos de câmera e microfone, e pedimos para João Xerri falar especialmente ao nosso Blog. João falou um pouco sobre a proposta e o significado da Agenda e também sobre a ilustração da capa. Assistam ao vídeo:

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Após a fala de Xerri, foi exibido o belíssimo videoclipe da música ‘’Latinoamérica’’ da banda porto-riquenha Calle 13, que conta com a participação das vozes latinas da peruana Susana Baca, da colombiana Totó La Momposita e da brasileira Maria Rita.

Assista aqui o videoclipe: 

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Thomaz Ferreira Jensen, economista e assessor técnico do DIEESE, foi o segundo a ser chamado ao palco para falar. Thomaz abre seu colóquio enfatizando o pessimismo nas análises econômicas atuais, mas faz um contraponto com a visão encorajadora de Pedro Casaldáliga, que enxerga na economia um importante e atual campo de disputas.

O economista conduziu nossa atenção para a ‘’desnacionalização’’ que acontece nos países latinos, fruto de resquícios dos processos de colonização e abusos sofridos por essas nações. Alguns dados e informações destacadas por Thomaz:

‘’Dado do primeiro semestre de 2012 – Brasil: Nunca antes tantas empresas nacionais passaram a fazer parte do capital estrageiro (…) ’’ ‘’(…) e a maior parte é dos EUA (…)’’.

‘’(…) E o que esses capitalistas fazem com o recurso obtido com a venda do patrimônio? Enviam para fora do país. ’’ – completa ele.

Ranking dos países que mais possuem recursos depositados no exterior, nos chamados ‘’paraísos fiscais’’:

1º CHINA; 2º RUSSIA; 3º COREIA; 4º BRASIL; 5º MÉXICO; 6º VENEZUELA; 7º ARGENTINA.

De acordo com o economista, a elite brasileira possui hoje aproximadamente Um trilhão de reais – R$ 1.000.000.000.000 – depositados em contas no exterior. Quantia que, pasmem, ultrapassa o valor da divida externa do nosso país – que é de 330 bilhões de dólares.

Para concluir sua fala, Thomaz enfatiza que um importante desafio para uma outra economia seria transformar a nossa elite ‘’desenraizada’’ do histórico de luta do povo latino. E finaliza:

‘’O vídeo que assistimos aqui [da música latinoamérica] não faz o menor sentido para eles’’.

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Foto de Thomaz Ferreira Jensen

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Ao término da fala de Thomaz e ao som da música Cio da terra, se inicia a apresentação do Grupo Pão e Arte, que proporciona ao público um momento místico antes de iniciar a fala de sua representante, Terezinha.

Em sua fala, Terezinha destaca a união das mulheres pela transformação da realidade da Zona Leste de São Paulo. Fala sobre o projeto de formação nas favelas locais e ressalta:

‘’Cada um de nós, todos somos capazes de mudar o mundo’’. 

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Foto de Terezinha

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Seguida do colóquio do Grupo Pão e Arte, começou a apresentação da Associação de Leigos Irmandade do Servo Sofredor, cuja fala foi conduzida pela Nara.

Impossível descrever em palavras a emoção sentida durante a apresentação músico-místico-teatral da Irmandade Servo Sofredor, que foi de grande comoção e sensibilidade.

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 Fotos da apresentação da Irmandade Servo Sofredor

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Ai vai o vídeo do depoimento que gravamos com Nara e seus companheiros durante o evento:

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Após a fala de Nara foi a vez de Zenaide Honoro, representante do DIEESE, assumir o microfone. Zenaide, visivelmente emocionada, enfatiza a dupla discriminação que as mulheres negras sofreram e ainda sofrem durante suas vidas.

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Foto de Zenaide

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Ana, representando o Projeto Âncora, foi a próxima a subir no palco e a expressar seus sentimentos pela Escola Projeto Âncora. Ana é mãe de filhos que estudam na Escola do Projeto e compartilhou conosco as diferenças nos hábitos dos filhos após o ingresso na nova escola. Ela ressalta a qualidade e a diversidade de atividades socioculturais oferecidas pelo projeto, que tem como principal diferencial a ‘’humanização’’ no método de ensino.

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Foto de Ana do Projeto Âncora

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Após a fala de Ana, fomos convidados a prestar homenagem aos mártires da América Latina. Eles são testemunhos constantes da luta pela justiça e paz, e por isso figuram na Agenda, para que, diariamente, façamos memória a estas pessoas, trabalhadores, estudantes, jovens, que animados por um projeto de mundo fraterno, doaram-se por inteiro. Em 2013, faremos especial memória dos 40 anos de martírio de Alexandre Vanucchi Leme, estudante de Geologia da USP, morto pela polícia em 17 de março de 1973, por causa da repressão da ditadura brasileira, e também dos 25 anos do martírio de Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988 por latifundiários, por defender as florestas e o direito a terra para todos e de forma consciente.

Em seguida, a missionária Elizabeth Rondon Amarante, popularmente conhecida como Irmã Beth Myky, assume o microfone. Irmã Beth, que vive há 35 anos em uma comunidade indígena no Mato Grosso, destaca o fato de estar ali representando os índios de sua terra e conduz sua fala nos trazendo informações importantes de sua luta atual contra o oligopólio agrário. Conseguimos ‘’roubar’’ a Beth Myky por alguns instantes e ela também falou para os jovens dominicanos, assista ao vídeo:

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Por último, sobe ao palco o único representante masculino da lista de homenageados, que é Carlos Kopcak do CEEP – Centro de Educação, Estudos e Pesquisas.

Carlos nos narrou um pouco da trajetória de lutas do CEEP desde a época da ditadura militar, durante sua fundação, até hoje. Ressalta que ‘’uma outra educação é possível a partir dos trabalhadores’’ .

Assistam ao vídeo de Carlos Kopcak falando um pouco sobre a Agenda e o CEEP:

 

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Antes do encerramento das atividades oficiais, foi lida uma carta de Dom Pedro Casaldáliga escrita especialmente para a ocasião do lançamento em São Paulo.

Após a cerimônia fomos todos convidados aos comes e bebes do pós-evento. E no meio do bate-papo encontramos o deputado estadual Adriano Diogo, que estava dando uma força para a rapaziada do evento. Adriano está envolvido nos trabalhos da Comissão da Verdade, que investiga crimes cometidos pelo Estado durante a Ditadura Militar, e achamos oportuno gravar o parecer dele sobre a Comissão e sobre o evento:

 

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Por lá, também tivemos a oportunidade de papear com um dos Amig@s do Livro-Agenda Latino-Americana em São Paulo, o Padre Geraldo Nascimento, SJ. Surpreso com o grande público presente na noite do lançamento em São Paulo, Geraldo nos falou um pouco do significado de toda essa movimentação. Assista aqui:

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Para encerrar, ressaltamos novamente que participamos de uma noite mágica. Fica fácil de acreditar em uma outra sociedade possível perto de tanta gente que dá o sangue e suor pelas causas dos oprimidos. E é justamente por essas pessoas, essas sementes que dão frutos no seu próprio tempo, que devemos continuar na luta pelo sonho ainda não alcançado.

Jovens do #MJDBR: A responsabilidade também é nossa, e o nosso claustro é o mundo.

 

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Contatos: 

Site do CEEP: http://www.ceep.org.br/

Site do CIMI: http://www.cimi.org.br/

Site do DIEESE: http://dieese.org.br/

Site do Projeto Âncora: http://www.projetoancora.org.br/

E-mail da Irmã Beth Myky: bethmyky@hotmail.com

E-mail de Thomaz F. Jensen: tfjensen@uol.com 

Contato Grupo Pão e Arte: Terezinha – tel (11) 2962 7862 | (11) 9205 6790

Endereço Irmandade Servo Sofredor: Travessia Elves Presley, 103 – Viela 3 – Vila Nova Progresso | 09120-100 – Santo André, SP.

 

A outra economia e a Agenda Latino-Americana 2013

Em algumas cidades do Brasil estão acontecendo os eventos de lançamento do Livro-Agenda Latino-Americana Mundial de 2013, organizados pelos Amig@s da agenda Latino-Americana.

Com o intuito de melhor entendermos a proposta da Agenda de 2013, que tem como tema ”A outra economia”, disponiblizamos aqui o texto de apresentação de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e um dos principais idealizadores da proposta da Agenda.

 

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Ilustração da capa do Livro-Agenda de 2013

 

 

A outra economia

por Pedro Casaldáliga

Na Agenda de 2012 nos perguntávamos que Humanidade podemos e queremos ser, que vida podemos e queremos viver, que convivência almejamos. Esta Agenda de 2013 aterrissa no campo de batalha da Economia, onde se decide a vontade e a possibilidade de viver e de conviver toda a Humanidade com verdadeira dignidade humana.

Emmanuel Mounier nos recordou que tudo é política mesmo não sendo a política tudo. Muito antes e depois ideologias e poderes têm reduzido tudo à Economia. Churchill dizia que “no fundo de toda questão há uma libra esterlina”.

A Agenda aborda a Outra Economia. Que não é um tema novo em absoluto, senão que conecta com a luta utópica de tanta Humanidade, em movimentos e revoluções, com diferentes nomes, porém na procura da justiça, contra a fome e a escravidão, contra todos os regimes políticos que têm negado o sol e o pão à imensa maioria da Humanidade una.

Falamos da Outra Economia, outra de verdade, radicalmente alternativa, não simplesmente de “reformas econômicas”. De reformismos baratos nos livre o Deus da Vida. A Outra Economia não pode ser somente econômica. Há de ser integral, ecológica, intercultural, a serviço do Bem Viver e do Bem Conviver, na construção da plenitude humana, desmontando a estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviço do mercado total, apátrida, homicida de pessoas, genocida de povos. Sonhamos com uma mudança sistêmica que atenda às necessidades e aspirações de toda a Família Humana reunida na casa comum “Oikós”. “Oikós-nomia” é “a administração da casa” que tem como lei a fraternidade/sororidade.

Esta outra economia só se pode dar a partir de uma consciência humana e humanizadora que se negue à desigualdade escandalosa em que está estruturada a sociedade atual. Uma economia para todas as pessoas e todos os povos, em comunhão de lutas e esperanças, como sonhava o camponês para seus nove filhos: “mais ou menos para todos”. Em nível de família, de vizinhança, de cidade, de país, de continente, de mundo. Sempre a partir dos pobres e excluídos, construindo da terra do povo, do seu suor, do seu grito e seu canto, do sangue derramado por multidões de mártires testemunhas.

Por ocasião da grande crise atual escrevia a revista “Iglesia Viva”, em seu número 248: “a única forma de sair da crise e evitar outras mais graves é combater a desigualdade em todas as suas manifestações”. Os informes do PNUD nos vêm recordando que o 20% mais rico da população mundial absorve o 80% das riquezas mundiais, e o 20% mais pobre têm que se conformar com 1,6%. Segundo Noam Chomsky, 230 famílias possuem 80% da riqueza mundial. Enquanto perdurarem estas cifras de desigualdade monstruosa não haverá paz nem justiça no mundo. A economia outra tem de ser a socialização dos bens maiores que são patrimônio de toda a Humanidade: a terra, a água, a moradia, a saúde, a educação, o trabalho, a comunicação, a mobilidade…

A economia de mercado, especulativa, financeira, rege o mundo e tudo está assim submetido à macroditadura capitalista neoliberal. Em vez de uma política social se impôs o mercado total e sua economia especulativa financeira globalizada. A civilização que hoje nos domina é a estruturação capitalista do egoísmo, da prepotência, da exclusão, da fome, da morte antes de tempo e por causas iníquas.

O teólogo mártir Ellacuría propugnava “a civilização da pobreza”. Eu a traduzia como “a civilização da sobriedade compartilhada”. Se continuarmos fazendo do lucro a qualquer custo a pauta da economia, seguirão crescendo a fome, a miséria, a violência, a depredação. O crescimento capitalista neoliberal somente pode vencer-se com um “decrescimento” harmônico e mundial. “O Bem Viver e o Bem Conviver” exigem e possibilitam que a Humanidade cresça verdadeiramente, humanizando-se em todos os níveis. “Humanizar a Humanidade” é a ordem. Ecologicamente, pluriculturalmente, iguais e diferentes na Casa Comum.

À luz da fé religiosa sobretudo, essa economia outra será uma verdadeira espiritualidade: de compaixão solidária com todos os caídos à beira do caminho; de indignação profética frente a todos os ídolos de mentira e de morte; de convivência amorosa com todos os seres. Supõe uma autêntica conversão ao Mistério da Vida, ao Deus desse Mistério, à “Oikós” que coabitamos.

Dirão que é utopia, e é mesmo. Uma utopia legítima se se vive dia a dia construindo- a na base do amor e da esperança. É uma economia-utopia que é preciso inventar a partir da prática diária. Obrigará a rever a fundo a noção e a prática da propriedade privada, tida como sacral e ilimitada. As Religiões, a Igreja concretamente, têm servido para justificar a entronização de uma propriedade privada que é privativa e privadora. Nos primeiros tempos da Igreja, em contrapartida, aqueles veneráveis bispos teólogos afirmavam categoricamente: “o que te sobra não é teu”. Acumulando em poucas mãos e excluindo as maiorias, a propriedade privada vem sendo uma guerra à morte entre opressores e oprimidos, como diria o teólogo Comblin, entre os que têm e os que não têm, como diria Cervantes.

Em linguagem bíblico-teológica temos a palavra chave para falar da Outra Economia, verdadeiramente outra: o Reino, a economia do Reino. Obsessão de Jesus de Nazaré, revolução total das estruturas pessoais e sociais, utopia necessária, obrigatória, porque é a proposta do próprio Deus da Vida, Pai-Mãe da Família Humana.

 

Foto de Dom Pedro Casaldáliga

Sobre José Comblin

Em uma de nossas diversas conversas pelo facebook, nosso querido amigo e assessor, Claudemir Rodrigues, op, compartilhou uma sensível visão sobre a pessoa de  José Comblin – Padre e Teólogo da libertação.

Nós do MJD – BR, que somos a favor do livre alcance das ideias, logo pedimos permissão para disponiblizar o depoimento aqui em nosso blog. Façam bom proveito! Aí vai:

 

Sobre José Comblin, por Claudemir Rodrigues – op.

”Como se trata de Padre José Comblin, vou me dar ao luxo e o prazer de fazer uma viagem ao passado, e por meio de uma memória afetiva, relembrar as boas experiências que tive com Padre José, como era conhecido no bairro do Mutirão, cidade de Bayeux, região metropolitana de João Pessoa. 

Padre José, desde que veio para o Brasil, e se deixou encantar pelo universo das pessoas mais Pobres, sempre morou em centros de irradiação de Teologia Popular, fundados por ele mesmo. O Sítio da Arvore sempre foi um centro de formação laical, formou gerações de bons leigos em toda a Paraíba, são famosos os Cursos da Arvore, seu método de trabalho popular. Quatro anos de sólida formação teológica, pastoral e humana para as lideranças de comunidade de Base, do sertão ao litoral da Paraíba. Eu Mesmo fui muitas vezes, quando adolescente, acompanhar a minha comunidade de Origem – Comunidade São Benedito – à mutirões de trabalho de conservação do local, assim como participar de festas e formação, algumas com Padre José. Lembro-me que a grande aventura era visitar a casa do santo profeta, sua biblioteca (diga-se de passagem, a única da cidade, e mais mais bem servida, talvez de todo estado, em matéria de boa teologia). Certo dia tive o desprazer de ouvir um certo religioso afirmar que Padre José não estudava, aquilo me irritou e revoltou deveras, achei de uma deselegância, e de uma ignorância tremenda, nunca encontrei padre José sem um bom livro nas mãos. Estou certo que ele fazia as vezes de nosso pai São Domingos, ele era a Voz dos Homens e das mulheres Pobres a Deus e a de Deus aos pobres homens e Mulheres. Sem sombra de dúvidas, se algum dia fizerem a Iconografia de Comblin, que seja feita obedecendo as regras de Nossa Iconografia Dominicana, ou seja, sempre com um livro nas mãos… pois ele era um grande mendincante da Verdade.

Comblin, por onde passou deixou rastros teológicos, deixou o da formação laica em Bayeux, o da formação dos leigos consagrados na cidade de Serra Redonda, onde tive o prazer de Estudar, e onde estava no dia em que morreu Dom Helder Câmara, (como esquecer o ofício daquele dia, fizemos um belo ofício de vigília). Deixou rastros teológicos na Cidade de Mogeiro, onde fundou o centro de formação para as leigas consagradas, e deu uma fundamental contribuição na fundação e estruturação da AMINE (Associação do Missionários do Nordeste). Em todas elas Comblin Deixou bibliotecas de excelência Teológica, tanto em obras como em revistas latino-americanas (foi onde tive acesso a literatura latino-americana, não só eu, mas muitos outros jovens adolescentes pobres paraibanos). 

Na produção teológica, Comblin foi o único a produzir uma teologia Peneumatológica. Foi o Teólogo do Espírito, e que se preocupou com a leitura de seus escritos, no início escrevia grandes e volumosos livros, mas atendendo o pedido das comunidade simples, que não estavam acostumadas a delicada arte da leitura, passou a a escrever textos curtos, ou relativamente curtos. Sempre prezou por uma linguagem clara. Seus livros marcos por um realismo, que muitos chamam de pessimismo eclesiológico, e justificam tal adjetivo, mas a meu ver, leram seus comentadores, e não sua obra. Conheci Professores de pneumatólogia que davam o esquema pneumatológico de Comblin, só lendo uma obra que ele escreveu sob encomenda para uma coleção de teologia da Libertação, obra esta, desprezada pelo próprio Comblin, em conversa, por ocasião de uma visita que fiz a ele, quando jovem professo… acabara de chegar do noviciado, e fui me apresentar a ele, dessa vez como frade dominicano, e dizer-lhe que fui ser dominicano por causa de seus escritos sobre a Ordem.

Conheci muitos Teólogos da “Libertação”, mas como o Padre José, conheci poucos (sendo caridoso), se ele falou de Deus, tenha certeza, ele o contemplou face a face, prova disso é que ele morreu. Ele falou dos pobres, sem nunca morar em um barraco, mas sem nunca sair do seu meio, ele fez o que todo dominicano devia fazer, anunciar o Cristo pobre aos irmãos e irmãs pobres. Ele viveu o que escreveu, foi presença do Espirito de Deus no universo das periferias do nosso Brasil. Contemplou e levou aos outros o frutos de sua contemplação!”

Caminhada Orante 2012: Natividade – Bonfim (TO)

Já reparou na loucura que fizemos? O quanto isso parece ser ridículo aos nossos olhos humanos? Se liga:

Em vez de ficar no Facebook ou na Beira-Rio se divertindo com os amigos ou até mesmo dormindo em nossas casas, estávamos andando a pé de Natividade ao Bonfim, em uma estrada de barro, sujando nossos tênis, sendo alimento para mosquitos, além de ter que molhar nossos pés em um riacho e depois ficar com chulé terrível… Afinal, o que levaria quase 20 jovens andar 23 km a pé? A resposta é Deus. Ele é o “culpado” por plantar em nossos corações essa vontade de ser diferente aos olhos do mundo. De ser jovens que não se entregam a imoralidade, que buscam rezar o terço e ler a palavra diariamente, que andam 23 km apenas para verem o quanto são fracos e assim poder perceber que sem Deus não são nada. Jovens que buscam ser santos de calça Jeans. A Caminhada Orante é muito útil para nos autoanalisarmos e, como toda experiência com Deus, só depende da abertura do nosso coração. Essa experiência também significou muito pros demais jovens:

“É sempre muito bom estar com meus companheiros de fé. A Caminhada Orante, mais uma vez, veio pra fortalecer certos sentimentos que guardo. As coisas do mundo, a correria do dia-a-dia me distância de Deus. O trajeto que fizemos pela segunda me proporcionou um momento que sempre sinto fortemente a presença de Deus comigo, do meu lado mesmo, no meu próximo. Acho isso lindo. Nessa experiência, diferentemente do ano passado, consegui refletir mais sobre minha vida, nas coisas que estão acontecendo. Às vezes me assusto com as mudanças ocorridas. Tive tempo pra me abrir com Deus e tentar, mesmo que aos poucos, entender seu propósito em minha vida. Isso me fez bem, uma paz que procuro. Enfim, tento contemplar da melhor forma e com a singela graça de Deus levar o fruto do contemplado.” (Luciana Castro)

“A Caminhada Orante me fez refletir muito sobre o silêncio e sobre as feridas! Percebi ainda mais o quanto fazemos orações intensas quando estamos no silêncio, quando fazemos orações dentro de nós… Isso me fez de uma forma, ficar mais próxima de Deus, sentir mais a presença dele. E acredito também que esse silêncio da minha oração me fez esquecer todas as feridas, todas as dores que iam surgindo no decorrer da caminhada. As dores então logo ficavam no silêncio, elas sumiam, e as feridas, todas elas foram de amor.” (Giovanna Araujo)

“A Caminhada Orante foi mais uma vez uma experiência diferente pra mim. Acho que pelo fato de ao longo do tempo eu ter entendido como é o grupo, de eu me sentir parte dele, de Deus se mostrar diferente pra mim, me fazer entender que tudo acontece no tempo d’Ele e que Ele age na nossa vida sempre da melhor forma.” (Nathalia Melo)

“Foi uma experiência sensacional em que compartilhamos nossas dores, sofrimentos com os outros e juntos vencemos o percurso.” (Gabriel Oliveira)

“Para mim foi mais que caminhada e oração: foi uma experiência para a vida.” (Luana Reis)

“O silêncio e a escuridão, permitiu-me conhecer a mim mesma.” (Daniele Pereira)

“A Caminhada Orante foi uma experiência maravilhosa, não apenas um momento de interagir e partilhar oração com os outros jovens, mas também deixou em mim uma lição pra ser praticada não só ali, mas diariamente, em toda a vida. Quando vi que teríamos que atravessar aquele riacho, queria voltar e ir pelo asfalto, mas aí alguém falou: ‘não gente, isso faz parte da caminhada’. Então atravessei, e é como se a água tivesse me fortalecido, até cheguei correndo no Santuário dói Senhor do Bonfim [risos]. E assim, graças a Deus, consegui completar minha caminhada. Fiquei refletindo sobre aquilo e vi que assim é a vida: cheia de obstáculos, dos quais devemos enfrentar com fé para conquistar a vitória.” (Joycielle Rodrigues)

Enfim, após esses relatos belíssimos não poderia deixar de partilhar que para mim também foi uma experiência muito enriquecedora, onde pude perceber o quão pouco eu faço pelos outros, porque quando você anda 5 horas a pé você acaba pensando no tempo e como você usa o seu. Foi aí que descobrir algo que a Beata Madre Teresa de Calcutá já sabia há muito tempo: ‘Não temos tempo para descansar aqui nesta terra, nosso descanso está no céu’, por isso a partir de agora vou lutar por Jesus sem cessar e é claro que isso inclui uma luta comigo mesmo, com meu “velho eu”. É difícil, porém não impossível! Espero que ao término dessa leitura você também tenha esse mesmo propósito.

Bremmer Felicio, 15 anos.

Agradecemos a todos que contribuíram para a realização da Caminhada Orante 2012, em especial aos pais que nos acompanharam e as Irmãs Dominicanas de Monteils do Colégio e do Noviciado.

Nos vemos em 2013, peregrinos!
Jovens Dominicanos, o nosso claustro é o mundo!