Quem foi esse homem?

por Frei Lourenço Maria Papin, OP

24 de Março é uma data que sempre nos lembrará o que ocorreu na noite desse dia em 1980, na capela de um hospital de San Salvador, capital de El Salvador, na América Central.
Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdámez, arcebispo de San Salvador ali estava celebrando a Missa pela falecida mãe de um jornalista. Bem no momento em que ele fazia a apresentação do pão e do vinho do Sacrifício Eucarístico, uma bala desferida de fora da capela traspassou-lhe mortalmente o coração.
Graças a um pequeno gravador colocado sobre o altar por um jornalista para gravar a Missa pela sua mãe, temos registrado a última homilia de Dom Oscar, como também o doloroso estampido do projétil que o atingiu.
Breve trecho dessa gravação:

“Esta Eucaristia é precisamente um ato de fé. A Hóstia se converte no corpo do Senhor que se ofereceu pela redenção do mundo e neste cálice o vinho se torna o sangue que foi o preço da salvação. Que este corpo imolado e este sangue sacrificado pelos homens nos alimentem para entregarmos nosso corpo e nosso sangue ao sofrimento e à dor, como Cristo, não para si mesmo, mas para dar o sentido de justiça e de paz ao nosso povo. Unamo-nos com justiça, fé e esperança a este momento de oração por esta mãe falecida e por todos nós”.
Esse episódio é denso de significado social, político e religioso. Para entendê-lo temos que contextualizá-lo no momento histórico em que ele ocorreu. El Salvador é o menor país da América Central, do tamanho de Sergipe, com uma densa população de cerca de cinco milhões de
habitantes, na maioria descendentes de índios e espanhóis. Na década de 70, a situação sócio-política era particularmente grave. A economia estava nas mãos de não mais de 30 famílias que detinham sessenta por cento das melhores terras. Há muitos anos, uma das mais vorazes oligarquias da América Latina, apoiada pelo exército e pelos Estados Unidos, dominava todo o país. Reagindo a essa situação surgiram diversos grupos armados, como também movimentos  populares de reinvidicações sociais, sobretudo da parte dos camponeses.
Foi quando, em Fevereiro de 1977, tornou-se arcebispo de San Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdámez, da Congregação Religiosa dos Claretianos. Os setores progressistas e renovadores da Igreja Católica ficaram decepcionados com sua nomeação, pois o consideravam um bispo tímido e conservador incapaz de enfrentar a problemática social do país.
Em Março de 1977, aconteceu um fato chocante. Um padre jesuíta, Rutílio Grande, auxiliar de Dom Oscar, foi barbaramente assassinado em razão de sua atuação em favor do povo oprimido. Dom Oscar repetirá, várias vezes, que o sangue desse sacerdote lhe abrira os olhos para as injustiças que estavam sendo cometidas contra seu povo. Dá-se na vida desse arcebispo uma radical transformação. Homem de grande sensibilidade pastoral, vai sentindo e conhecendo mais de perto os sofrimentos de sua gente. Sua atuação vai se tornando cada vez mais
abrangente. Recebe, em sua casa, a todo momento, grupos de camponeses, mães de família, mulheres humildes, adultos e jovens que vêm falar de seus mortos que foram vítimas de perseguições e violências. Dom Oscar torna-se a voz dos que não tinham voz, sobretudo através de suas
vibrantes homilias na Catedral de San Salvador e de seus corajosos pronunciamentos e entrevistas pela rádio, denunciando, com fatos e dados, todo tipo de injustiça que o povo estava sofrendo.

Sua presença, sua palavra e sua atuação apostólica e profética incomodaram o governo, os poderosos e as classes dominantes. Uma de suas últimas homilias em que conclama os soldados a não obedecerem a seus chefes para evitar a morte de seus irmãos camponeses, lhe custará à vida. Assim falava Dom Oscar:
“Diante de uma ordem de matar que dê um homem, deve prevalecer a Lei de Deus que diz: não matarás. Nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus”.

E assim, naquela noite do dia 24 de  Março de 1980, celebrando a Eucaristia, Dom Oscar, ensanguentado aos pés do altar, morreu mártir do Cristo e da sua Igreja, por ter lutado em favor de sua gente pobre e oprimida e por ter enunciado e enfrentado a violência brutal dos poderosos de seu país. Dom Oscar tinha dito:

“Se me matarem, ressuscitarei na luta do meu povo”.
Seu martírio certamente não terá sido em vão. Como não terá sido em vão a morte ou martírio, em 1989, de seis sacerdotes jesuítas da Universidade Centro-Americana (UCA) de San Salvador, seguidores de Dom Oscar Romero. Cabe aqui lembrar que há 34 anos, por ocasião da morte de Dom Oscar Romero, fundava-se na Região Episcopal Ipiranga, Arquidiocese de São Paulo, o Centro de Direitos Humanos Oscar Romero (COR). Levando o nome de Oscar Romero, esse Centro quis prestar seu preito de homenagem e veneração a esse mártir latino-americano.
O COR, além de sua missão de promover a Justiça e a Paz, tornou-se forte instrumento de divulgação da vida e missão de Dom Oscar Romero. Entre os fundadores desse Centro estão Frei Lourenço M. Papin, Frei Romeu Dale e Frei Sérgio Calixto Valverde (falecidos), e o Prof. José J. Queiroz.
Quem foi esse homem?
Foi um pastor, exemplo de amor e doação até o fim, como Cristo. Foi um profeta e mártir da Justiça e da Paz.

Na Santa Sé vai adiantado o processo de sua beatificação. Antes mesmo de ser beatificado e canonizado, exclamo com DomPedro Casaldáliga, Bispo emérito de São Félix do Araguaia, amigo pessoal de Dom Oscar:

“É São Romero da América”!

Assim o invoquei quando, como romeiro, visitei seu humilde túmulo na Catedral de San Salvador.

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