Ser missionário

por frei Rui, promotor internacional da Ordem dos Pregadores para o laicato

O espaço missionário, que acontecerá de 07 até 14 de Julho em Conceição do Araguaia (PA) se aproxima e para iluminar a cabeça daqueles que vão e também do MJD em geral trazemos um texto do Fr. Rui Almeida Lopes,op, promotor geral da ordem para o laicato. Ele comenta o evangelho segundo São João, que está ao fim do texto, ou pode ser lido clicando aqui.

“Ao falar de missão, do que é ser missionário permitam-me que comente convosco este texto do Evangelho de S. João que nos dá o sentido da forma como recebemos a missão e como a devemos realizar.
O texto que lemos situa-se no contexto da longa oração de Jesus após a última ceia onde parece que Ele revela os segredos o seu coração. Aqui como talvez em nenhum outro lugar o Senhor Jesus nos diz que servi-Lo radica no amá-Lo, como acontece com Pedro a quem o ministério é confiado a partir da sua tríplice confissão de amor. Ser missionário e amar parece que neste texto dão as mãos num ligação profunda. Mas tentemos ver alguns dos seus elementos.
– “assim como o Pai me amou também eu vos amo a vós” percebemos que o nosso ser e agir em Cristo é uma participação do amor existente no seio do Deus Trindade, a força motora da missão não é outra senão a do próprio amor que existe em Deus que é amor, que nos envolve e nos envia. O cuidado no serviço, não é senão participação desse movimento amoroso com que o Pai envia o Filho ao mundo e com que Pai e o Filho enviam o Espírito para consumar esta obra de salvação. Perceber isto, e sobretudo abrir-se a este dom é qualquer coisa de admirável, sou chamado a amar e a servir, a ser missionário com a força de amor que existe no coração de Deus. A palavra grega que traduz este sucessivo envio das pessoas da Trindade tem o nome de processão, parece que somos associados ao movimento de amor que se gera a partir de Deus e que nos agita por dentro.
– “Permanecei em mim” e”guardai os meus mandamentos”. O segredo do serviço evangélico é a união de amor com o Senhor. Permanecer é uma força que demonstra um espaço temporal longo. Não permanecemos quando vamos de visita ainda que ela possa demorar alguns dias, só permanecemos quando vivemos no coração de Deus e aí estabelecemos a nossa casa. Cada um de nos se pode perguntar como permanecer em Deus. Santa Catarina convidava-nos a permanecer no santo amor de Deus e aí encontramos um convite que não poder ser recusado ou adiado. Certamente isto significa procurar viver uma profunda união de amor em toda a nossa vida comentada numa vida de profunda oração e alimentada nos sacramentos. A dimensão contemplativa da nossa vocação fala-nos disto. A imagem que antes desta passagem é proposta contém uma rara beleza trata- se da alegoria da videira e dos seus ramos, unidos de tal maneira que a seiva que percorre o tronco percorre também os frágeis cachos
– A missão leva-nos a entrar na escolha amorosa de que fomos objeto. ‘Não fostes vós que me escolhestes fui eu que vos escolhi’ esta frase faz-nos entrar no âmago da vocação no contexto do Evangelho, esta é sempre fruto de uma iniciativa de Deus pelos meus méritos mas porque Deus me ama com um amor imenso. Muitas das dúvidas e incertezas que temos sobre a capacidade de realizarmos determinado serviço desapareceriam se estivéssemos mais convictos de que fomos objeto de uma escolha, antes de que lhe pudéssemos responder ou balbuciar uma tentativa de resposta. Isto é qualquer coisa de muito belo, antes que nós balbuciássemos um Sim já Deus nos tinha escolhido; senão percebermos que, de fato, fomos escolhidos nunca poderemos perceber o alcance da missão ou desfocamo-la como coisa que está dependente de nós, e quantas vezes olhamos para o serviço missionário como se, de facto, ele estivesse apenas dependente de nós.
– Mas a frase mais importante que gostaria de sublinhar é esta: ‘ já não vos chamou servos, mas amigos porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai’. Esta frase configura uma nova forma de servir. Sirvo como amigo, não como servo. Na percepção do amor de amizade há uma tendência de nivelar, de colocar no mesmo patamar. O amor que nos liga aos Pais ou ao Superior manifesta sempre uma desigualdade entre as duas partes, pais e filhos, superiores e súditos podem estar ligados pelo amor mas permanecem em degraus diferentes, não é assim com o amor de amizade, o próprio é igualar as duas partes, é uma relação totalmente gratuita de ambas as partes e, por isso cria uma aproximação e um envolvimento que aproxima. Entre amigos há lugar à confidência que muitas vezes não se pode ter com outro tipo de relações fundada igualmente no amor mas que mantêm igualmente desigualdade entre as partes, por nessa relação existe, também o culto da autoridade. Ao dizer que somos amigos quer dizer que Jesus nos amou pondo-se ao nosso lado e não em nenhum degrau superior, podemos olhá-lo no mesmo comprimento de olhar sem ter que com temor olhar para cima. Confidenciou-nos muito de si mesmo, como um amigo confidencia com o seu amigo, fez- nos entrar no segredo do seu coração e do seu projeto amoroso. Isto faz toda a diferença na missão que nasce da confiança , que nasce do amor. Quando há esta relação de amizade tornamo-nos participantes corresponsáveis do seu projeto de amor e não meros executores, uma coisa continua a ser necessária é que mantenhamos esse vínculo de amor a que o Senhor chama de amizade. Pergunto- me se nos entendemos quando servimos o Reino como amigos, perceberemos que o que fazemos nos foi confidenciado com amor, não tento como uma ordem que temos de cumprir mas como um murmúrio suave que passa de coração a coração e não como uma ordem de operações que devemos seguir como ordem recebida do alto que não exige a liberdade e o amor do cunho pessoal que nele devemos colocar. Perceber a missão a partir da amizade é um dom que nos torna muitos diferentes na forma como o realizamos. Isto faz toda a diferença servimos não num escalão inferior mas ao lado que a amizade que Ele manifesta por mim aí me colocou.
– Mas a outra face do serviço nesta linha é aprendermos a servir com a mesma medida com que o Senhor serviu: ‘amai- vos uns aos outros como Eu vos amei’ e ‘ ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos’. Servir a partir do amor significa usar esta medida que não é medida porque significa dar tudo, dar a vida significa gastar-se, servir até ao último suspiro, não temer a morte como doação final, não arranjar subterfúgios para não se entregar. Não por estoicismo, não por radicalismo, mas por amor simplesmente. Servir significa dar-se totalmente, se preciso for dar a própria vida porque o amor naturalmente para isso nos arrasta. Mas tudo isto é possível não pelas nossas forças mas porque nos sentimos verdadeiramente amados.
Penso que ser missionário bebe nesta raiz de amor-escolha e transporta esta mensagem de amor e de beleza.”

Jo 15, 9-17
“Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês: permaneçam no meu amor. Se vocês obedecem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu disse isso a vocês para que minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa.
O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando. Eu já não chamo vocês de empregados, pois o empregado não sabe o que seu patrão faz; eu chamo vocês de amigos, porque eu comuniquei a vocês tudo o que ouvi de meu Pai. Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça. O Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome. O que eu mando é isto: amem-se uns aos outros.”

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