A visita do Menino

por Frei Bruno Palma, op.

Nasceu para nós um menino,

Um filho nos foi dado.

(Isaías 9,5)

A fuga de José e Maria com o menino Jesus, de Erivaldo

A fuga de José e Maria com o menino Jesus, de Erivaldo

O barulho vai atrapalhar: ele vem silencioso e desarmado. O ruído da nossa alegria pode intimidá-lo; as facas das nossas palavras, assustá-lo.

Ele vem como brisa suave que mal levanta as folhas da nossa soleira; como quem pede licença, em voz baixa; quem procura refúgio.

Como a luz da manhã, vai infiltrando-se pelas frestas de nossas portas, das nossas barricadas, abrindo caminho pelos corredores, descendo aos porões escuros.

É preciso deixar o Menino entrar. Sua aparência tão comum nos assusta, sua presença certamente vai nos incomodar. Mas deixem o Menino entrar.

Ele vem tomar parte da nossa festa. E bem que merece essa festa porque hoje é o dia de seu aniversário. Mas quantas pessoas se lembram disso? E com esse barulho de copos e talheres, nesse tumulto de vozes e risadas, quem vai ouvi-lo?

Deixem o Menino entrar.

Hoje é um dia muito especial, porque é a primeira visita do Menino. Aproveitem enquanto é pequeno, para toma-lo nos braços e apertá-lo contra o coração. Hoje é ainda bem pequeno; e, para dormir, basta-lhe um punhado de palha e uma manjedoura.

Deixem o Menino entrar, em sua casa e em sua vida. Não fechem as portas, nem lhes ponham cadeados: ele sabe como abri-los, mas não vai forçar a entrada.

Sim, deixem-no entrar: é tão pequeno!…

Quando crescer e tornar-se home, é ele quem vai carregá-los. Então, vai lhes parecer que será incapaz de fazê-lo; mas vocês se enganam: ele vai carregar um peso muito maior, quando subir a Montanha com a Cruz as costas, pois, com ela, carregará a todos nós e mais o peso do mundo e da história dos nossos desatinos, escrita com fuligem e sangue.

Mas, hoje, o Menino é leve. Deixem-no entrar.

O Advento

por frei Claudemir Silva, op

A palavra Advento deriva do substantivo latino Adventus, que significa “ato de chegar, chegada, vinda”. Por sua vez o substantivo latino adventus, tem suas raízes no verbo advenire, “vir para perto de…”, este verbo gera uma série de outras palavras, como por exemplo o adjetivo latino adventícius, “que vem de fora”, ou mesmo o verbo advento, “chegar rapidamente, aproximar-se”, e ainda o substantivo adventor, “o que vem visitar”.

Meus queridos confrades esta pequena investigação etimológica, servirá de nota introdutória à nossa breve reflexão em torno do Advento. Sobre o “niver” do nosso Movimento vamos o entrelaçando com o tema principal, afinal o Movimento Juvenil Dominicano, é obra do Espírito, disto estou convencido! E se é obra do Espírito, sua história está misturada à história da Igreja e ao seu modo de conceber o tempo. Não custa recordar que a história não é a somatória das narrações dos grandes eventos da humanidade, classificados assim por uma pequena elite dominante, e sim a memória da aventura humana em busca do bem viver, constituída por altos e baixos. E o que de fato faz a diferença neste peculiar modo de conceber a história é a questão deste considerar os pequenos gestos de bondade, generosidade, abertura de espírito e coração, feitos por homens e mulheres comuns, no cotidiano de suas vidas. É aqui onde se encaixa os cinco anos de vida do MJD.

O Ano Litúrgico é antes de mais nada a consagração do tempo à Deus. Esta concepção devemos ao evangelista Lucas, que em sua teologia apresenta o tempo cronológico como lugar de salvação, se vivido à luz da fé. A Igreja dividiu o Ano Litúrgico em: Ciclo de Natal, Tempo Comum, Ciclo Pascal, com o intuito de encravar na temporalidade o Mistério Pascal de Cristo. O tempo que abre o Ano Litúrgico é denominado Advento, se a palavra advento significa chegada, numa ótica de fé, esta chegada é a do próprio Deus que vem.

Poderíamos afirmar que Deus vem a nós em três momentos: no nascimento de Jesus, na vida e na história de cada indivíduo, e em sua glória, no final dos tempos. Se Deus virá para perto de nós, nos completará e nos acolherá, o que resta de nossa parte é vigiar e esperar. A Igreja chama esse tempo de espera ativa de Advento, e por este motivo que ele abre o Ano Litúrgico. Por meio de sua dinâmica, seus símbolos, hinos nos prepara para receber o Deus que vem nos visitar. O Advento é o tempo de no silêncio sonhar com dias melhores.

Sendo um tempo de espera, o Advento deve ser um tempo de silêncio. Pois no silêncio é a maneira mais excelente de esperar, já nos ensinava o profeta Elias (1 Reis 19:11-12).  Advento é o momento de ouvir o que diz o coração, escutar a voz interior e dedicar nosso tempo a Deus. Vamos, homem comum, deixa um pouco de lado teus afazeres. Afasta-te um pouco dos teus pensamentos gritantes! Manda embora as preocupações que pesam sobre ti e afasta-te daquilo que te dispersa o espírito! Dá um tempo a Deus e repousa nele! “Dize a Deus: Eu busco tua presença, Senhor” (Sl 27,8). Meu Senhor e meu Deus, mostra a meu coração onde e como procurar-te, onde como posso encontrar-te.

Quando mais jovem, da idade de alguns de vocês, gostava de ouvir uma amiga contar sobre suas experiências místicas, suas noites de vigílias, noites dedicadas a Deus, à oração, ao silêncio, confesso que fechava os olhos e ficava só ouvindo, ela era da Assembleia de Deus, e isso era o que mais me surpreendia, pois não cabia na minha cabeça a mistura de silencio com a Assembleia, pois eles sempre tão barulhentos. Havia um templo da Assembleia relativamente perto de casa, e o barulho era ouvido a distância, talvez por isso ficava tão admirado. Costumava falar: “você é uma crente diferente”. Sendo assim, penso que essa colega de infância, que transcendeu o hábito de sua comunidade tem algo a nos ensinar, talvez uma boa prática para este período de advento: Seja ficarmos alguns momentos em silêncio e sem nada fazer, apenas ouvindo a voz interior e perguntando: O que realmente esperamos? Pelo que ansiamos? O que pode preencher nossa vida? O que nos falta? Seria bom passarmos uma noite intencionalmente acordados, despertos à espera do Cristo, tal como é dito no Sl 130: “Minha alma espera pelo SENHOR, mais que as sentinelas pela aurora”. O significado da espera pela chegada de Deus no Advento se torna claro para nós, se lembrarmos a espera por uma pessoa querida. Já imaginaram, adotar para este período a prática da vigília na torre da Igreja, hábito muito salutar do MJD- São Vicente? (Quem tem ouvido para ouvir que ouça).

O lecionário do advento nos convida a ouvirmos as promessas de Deus, em especial por meio da profecia de Isaías, anunciando que brotaria água no deserto, que espadas se converteriam em arados e que o lobo e o cordeiro, conviveriam em paz. Essas imagens não são ilusões utópicas, (no sentido fraco), criadas pelo profeta para nos iludir. São, na verdade, sonhos nos quais descobrimos nossas próprias possibilidades. São sonhos de Deus conosco. E, no Advento, nós sonhamos dentro do sonho de Deus, para liberar mais e mais as nossas possibilidades. Assim obtemos noção de até onde podemos ir. Quando Deus chega, o deserto em nosso coração floresce, brota uma fonte em nosso interior vazio e seco, enchendo-nos de vida. Ou, nas palavras dos profetas, que sempre relembramos nessas ocasiões, “o orvalho cairá do céu, fertilizando a terra”. As nuvens do céu devem “chover justiça”, para que germine a vida nova, para que o nosso mundo volte a ser habitável.

O advento é marcado no Hemisfério Norte, por noites mais longas e clima frio. O ano civil está terminando. Na escuridão, ficamos desorientados, sentimo-nos desamparados, solitários, não achamos o caminho de casa. Na escuridão, chamamos pelas pessoas que estão por perto, para que não caiamos em algum buraco. O medo da instabilidade em nossa existência nos leva a procurar apoio uns nos outros. E aqui nos vem o conforto que brota da audição atenta da Palavra de Deus por meio da profecia de Isaias, quando este diz: O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (Is 9,1). Estas palavras podem tranquilizar nosso medo, trazer luz a escuridão na qual estamos envoltos, ou por vezes mergulhados.

O frio do inverno é um símbolo do frio que sentimos no coração. Estamos falando de uma atmosfera de gelo que predomina entre as pessoas. Pessoas geladas assustam, temos medo de que o gelo que nos envolve acabe nos congelando o coração. As velas da coroa do advento que piedosamente acendemos neste período não só iluminam a nossa escuridão, como também aquecem nossos corações. Aqui me vem à memória as decorações que o Leo, e a turma fazia por ocasião de nossas inúmeras vigílias, sentados no chão, sobre o “tapetão” (quem tem ouvidos para ouvir que ouça), a coroa do advento nos impulsiona a aqueles momentos de na escuridão contemplarmos a luz. “E quando me entrego à influência da luz tremulante de um círio, muitos anseios vêm à tona, anseios por amor, calor e aconchego do lar”. Meus queridos confrades Advento nos diz que nossos anseios e sonhos não são ilusões, e sim formas de um mundo onde a luz de Deus alastra calor e amor, onde posso estar realmente em casa, onde desabrocha uma flor “em pleno frio do inverno a meia-noite”.

Queria refletir o advento de uma maneira diferente, numa perspectiva mais corriqueira, talvez como um caminho espiritual, uma Caminhada Orante: isso é muito MJD. São cinco anos marcando nosso jeito de ser. Nosso engajamento político, pastoral, social deve ser sempre reflexo do objeto contemplado por cada um de nós, que é o próprio Deus em Jesus Cristo,: “Contemplari et contemplata aliis tradere”.

As noites dos trabalhadores rurais escravizados. A estrela na noite da solidão.

por frei Henri des Rosiers, op

Sentados em frente das suas casas, eles estavam sem trabalho na sua pequena cidade pobre do Piauí e suas crianças passavam fome. Passou uma camioneta com alto-falante convidando o pessoal para trabalhar numa fazenda do Estado do Pará. O “gato” do fazendeiro prometia bons salários, comida, alojamentos. Iludidos, sem alternativa, embarcaram no caminhão. Foram dois dias de viagem cansativa, no calor, na poeira, quase sem comer.

Agora, eles estão lá, junto com muitos trabalhadores migrantes, de todas as regiões do Brasil, perdidos na mata, debaixo da lona, sem receber salários, sem dinheiro, bebendo água suja do córrego onde pisa o gado, comendo carne de vaca doente, trabalhando o dia inteiro, do amanhecer ao anoitecer, no calor, derrubando árvores, roçando juquira, vigiados por homens armados.

Há três meses que sobrevivem nessa escravidão. Nesta noite, deitados cansados nas suas redes, eles olham, mais uma vez, através dos buracos da lona, o céu estrelado. Onde está sua estrela? Pois cada um tem uma estrela! Onde está a estrela do menino, seu companheiro de 17 anos que, sendo menos vigiado, conseguiu fugir para tentar alertar as autoridades? Saiu de noite com o dinheirinho e o  frito que conseguiram arrumar para ele. Onde está? Será que está vivo? Conseguiu escapar dos pistoleiros que foram atrás dele no dia seguinte?

A noite se afastou, apareceu a aurora, amanheceu, o sol se levantou. Já no serviço, dentro da mata, desmatando, ouviram um ruído de motores. De repente apareceram no fundo do trilho, três camionetes 4×4, solavancando. Chegaram. Policiais federais pularam fora, armas em punho. Saíram também vários fiscais do Ministério do Trabalho, Procurador da Republica, Delegado da Polícia Federal. Estavam livres!

No banco traseiro da camionete, encapuzado, escondido, um rapaz, com medo. Era o menino Sebastião! Era ele que tinha alertado as autoridades e mostrado o caminho desconhecido, tão difícil para chega até aqui!

Sebastião tinha caminhado a noite inteira na mata, no meio dos ruídos da floresta, com medo das cobras, das onças, dos jacarés, bebendo a água dos córregos, se orientando com essa estrela do Cruzeiro do Sul, como lhe tinha ensinado seus companheiros mais velhos. Seguindo sempre ela, não se perderia e cruzaria, com certeza, cedo ou tarde, uma estrada.

Não foi uma estrela que levou os Reis Magos, de noite, até a manjedoura do Menino Jesus?

O jovem Sebastião seguia também sua estrela com confiança. Às vezes a perdia na escuridão total da mata fechada, mas a encontrava de novo logo em uma clareira, todo alegre! Andou muito, muito. Tropeçava, vacilava, caia. Ficava um pouco deitado nas folhas do chão. Olhava para o céu. Se sentia tão pequeno nessa imensidão dessas miríades de estrelas do firmamento, tão perdido nessa mata sem  fim, tão frágil.

Mas, o Menino Jesus não era uma coisinha muito pequeninha, muito frágil nessa noite de Natal, na manjedoura?  Não é na fraqueza do ser humano, da nossa vida, que a força do Amor de  Deus se manifesta?

Sebastião comia um pouco do frito dos companheiros os quais esperavam tanto dele. Retomava força. Buscava sua estrela no firmamento, levantava-se e caminhava de novo.

Amanheceu, o sol apareceu. Chegou a uma estrada de chão. Para onde ir? Para a esquerda, para a direita? Esperou, esperou! Chegou um velho caminhão.  Parou, entrou na cabina perto do motorista. Andaram e depois de um bom tempo de silencio, o motorista parou, olhou para o menino e perguntou: “Você esta fugindo de uma fazenda?” Tremendo de medo, respondeu “Sim.” Então, vai atrás na carroceria e se esconde debaixo da lona e da mercadoria, bem escondido, porque na ida, um pouco mais pra frente, tinha um grupo de homens armados que paravam e vistoriavam os veículos. Sebastião se escondeu e o caminhão partiu.

Alguns quilômetros depois, homens armados pararam o caminhão, olharam na cabina, falaram com o motorista e o deixaram ir embora.  Mais tarde, o motorista chamou Sebastião para a cabina. Andaram a tarde inteira e chegaram a noite em uma cidade, Tucumã. O motorista deixou Sebastião no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Lá se comunicaram com a CPT que articulou com as autoridades a libertação dos 150 trabalhadores escravizados lá na mata.

Já era de noite, a estrela que tinha guiado Sebastião brilhava no céu. Era a mesma estrela que aquela que tinha levado os Reis Magos até o presépio do Menino Jesus, aquele que veio para libertar os oprimidos e anunciar o Reino do Amor, da Justiça, da solidariedade e da Paz.

25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz e Carta final do Encontro

por Paula Daniela Alves

“Diversão, zueira e festas são coisas que fazem parte da vida, mas nossa existência não se limita somente a isso. Não se limita a sermos apenas meros expectadores. Acredito que devemos ser protagonistas, que podemos e devemos interferir na estrutura social, lutando para que o mundo seja um lugar onde a humanidade possa crescer em graça e não proliferar o ódio, a discriminação e a guerra. E é por acreditar nisso que participar do 25º encontro da Comissão Dominicana de Justiça Paz foi um momento único de aprendizado, partilha e lógico um pouquinho de diversão. Além do mais, conhecer pessoas que lutam de corpo e alma por uma causa é sempre inspirador, e é esse retrato que se cristalizou na minha mente, como uma imagem que não deve ser esquecida, especialmente quando o Mingas contava sua experiência nas comunidades rurais.”

Durante os dias 22 a 24/11, 104 pessoas, entre frades, freiras e leigos discutiam, compartilhavam e planejavam ações para compor uma sociedade mais justa no 25º encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz, na cidade de Goiânia (GO).

Na sexta houve a assembleia eletiva onde foram escolhidos os membros da nova comissão, onde o MJD teve direito a voto sendo representado pelos amigos Bruna Alfonsi, Ryan Lopes e Rafael Oliveira. Onde quase que um dos nossos foi eleito!

No sábado, após um pequeno preludio, é passada a palavra ao assessor do evento, frei Raul Vera, bispo mexicano, confrade dominicano, companheiro de luta nos movimentos sociais. Frei Raul, a partir de um trecho do Deuteronômio que narra sobre o jubileu das dívidas após 7 anos, reflete sobre a sociedade de hoje e a importância indevida aos bens materiais e o consumismo desenfreado. Mas com palavras de esperança ressalta que ter dimensão comunitária, é trabalhar para a construção do reino de Deus, e que esse deve ser o verdadeiro sentido da vida humana.

Bispo Dom Raul Vera, op

Bispo Dom Raul Vera, op

Esse momento é seguido de uma partilha e discussão em grupo, aonde dois de nossos companheiros de caminhada, Paula Daniela Alves e Rafael Oliveira vão à frente da plenária como relatores de seus grupos de discussão. Prosseguindo nesse tema, nosso assessor discursa sobreos males do capitalismo, exemplificando com a história dos movimentos sociais mexicanos e para finalizar sua fala conta um pouco sobre seu encontro com o Papa.

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E para terminar o dia com júbilo nada melhor que uma celebração eucarística emocionante seguida de uma confraternização mais do que animada, típica da família dominicana. No dia seguinte, para iniciar a plenária, foi mostrado um vídeo contando um pouco da história dos últimos 24 encontros. Após o momento histórico frei Raul fez uma explanação incrível com base num trecho do Evangelho de Lucas, “eu Te louvo, pois escondesses as coisas dos sábios e inteligentes, e as entregastes aos pequenos”.  Sua fala é carregada de emoção ao dizer que o reino de Deus pode ser vivenciado aqui na terra, a partir do momento que a sociedade se organiza em prol da justiça, dos direitos humanos e de uma vida digna.

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E inflamados com essas palavras formaram-se grupos de discussão com o tema “como manter a fidelidade aos pobres e as suas causas?”. E novamente o MJD se destaca, tendo três dos quatro membros participantes escolhidos como relatores de seus grupos. Na parte da tarde há um momento para partilhar iniciativas, fazer convites para novas ações e muitas trocas de contatos. E é com a coragem renovada que o MJD se despediu desse encontro.

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Carta final do 25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

– 25 anos gritando por Direitos Humanos –

Viemos inspirados e inspiradas pela luz inicial de Domingos e seus seguidores e seguidoras que, ao longo dos oitocentos anos da história da Família Dominicana, viveram seus compromissos com a Justiça e Paz. Viemos provocados pelo testemunho de tantos irmãos e irmãs que continuam ainda hoje lutando junto ao povo em busca da libertação. Viemos desafiados pelos problemas de nossa época, marcada pela desigualdade social, pela crise das instituições e pelo esgotamento dos recursos naturais. Viemos movidos pelas novas luzes e testemunhos provocados pelo Papa Francisco, que convoca a Igreja a abrir-se para o mundo e às problemáticas contemporâneas de todos os povos. Viemos celebrar 25 anos da COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL, no marco dos 800 anos da fundação da Família Dominicana, dos 500 anos da conversão de Las Casas e dos 40 anos do martírio de Frei Tito de Alencar.

Somos 104 irmãos e irmãs do Brasil, do Uruguai e do México. Somos leigos, leigas, irmãs e frades que trabalham familiarmente para efetivar a Justiça e Paz nos mais variados espaços: nos movimentos sociais populares, nos organismos da Igreja, no mundo da Política e da Educação, com os jovens, as mulheres, os negros, os indígenas, os camponeses, os povos de rua, os favelados, os pobres. Testemunhamos advertências e esperanças.

A COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL é a casa de acolhida para todos e todas que atuam e trabalham nas bases, ameaçados, difamados e perseguidos. Aqui, bebemos a água pura da fraternidade e partilhamos o pão sagrado da amizade e do companheirismo.
Fomos animados e provocados por Frei Raul Veras, bispo de Saltillo, no México. Ajudou-nos a refletir sobre o papel da Igreja nos dias atuais, destacando a urgência de que ela se volte para os pobres, seus dilemas, suas dores e suas esperanças. A radicalidade do compromisso da Igreja com os sofredores e a proximidade com as problemáticas sociais e políticas, são a fonte central de nossa dimensão evangelizadora. O compromisso ético e profético com as causas que afetam os seres humanos de hoje é por onde coincidimos com todas as demais religiões do mundo que seguem os princípios da solidariedade, da Justiça e Paz.

O compromisso dominicano com a verdade passa pela adesão a esses princípios. A Igreja deve assumir radicalmente a dimensão comunitária do Evangelho, pois o Reino de Deus é uma realidade coletiva que exige uma recusa do sistema econômico perverso que cresce no nosso meio, através de várias formas de egoísmo e individualismo. Como definem as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015, “a Igreja, como mãe, deve ser a primeira a se interessar pela defesa dos Direitos Humanos”. (112).

Tendo sido um dos dez bispos a participar da recente audiência do papa Francisco com os movimentos sociais populares, Dom Raul partilhou as impressões e as repercussões da audiência de um dia completo dos militantes com o papa. Contou-nos do entusiasmo com que o povo entrou no Vaticano e provou uma Igreja presente, aberta para os pobres e solidária com suas lutas. Refletimos sobre a espiritualidade bíblica na ótica dos empobrecidos, o nosso trabalho com os movimentos sociais populares, a formação e o trabalho em rede e com novas tecnologias, bem como sobre a atualidade de nossa evangelização em nossos dias.

Foi intensa a festa dos 25 anos, mas ainda incompleta. Ela só será vivida em plenitude quando todos os direitos forem garantidos para e com todas as pessoas, como nos ensinou Frei Bartolomeu de Las Casas, já no século XVI: “todos os direitos para todos”. Precisamos deixar claro que ainda há muito caminho a ser andado para superar a redução do Cristianismo a uma Religião de salvação individual. Há práticas de indiferença em relação aos direitos dos empobrecidos também nos espaços eclesiais, e há mesmo os que justificam a apropriação individualista e a avareza individualista. Estamos longe de colocar realmente os bens e os dons pessoais e eclesiais a serviço dos direitos dos empobrecidos e em favor de sociedades
assentadas sobre a Justiça e promotoras da Paz. Por isso, foi muito estimuladora a reflexão de Frei Raul a partir do Deuteronômio e do Evangelho da comunidade de São Lucas.

Frente a essa realidade, assumimos que a missão da COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL tem sido e continua sendo de profecia, no sentido dado a ela por Jesus de Nazaré. Por um lado, nosso lugar de missão é todo território em que vivem pessoas com direitos parcialmente realizados ou negados de forma completa. Com eles e elas, queremos acolher, publicar e celebrar tudo que há de positivo e libertador em sua vida. Como Jesus, reconhecemos a fé, a sabedoria e a solidariedade que já existem em sua vida: “eu te louvo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e orgulhosos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, isso foi de teu agrado” (Lc, 10, 21-21).

Por outro lado, assumimos que, sem medo, precisamos ser firmes na crítica e denúncia do que impede que todas as pessoas tenham garantidos seus direitos. Isso abarca a autocrítica de tudo que é necessário em nossa vida e prática, a crítica da política e da economia dominantes, da comunicação controlada por grandes empresas, da agricultura química e de monoculturas do agronegócio, dos preconceitos e da exclusão que negam a dignidade dos pobres, dos indígenas, dos negros, das mulheres, dos jovens.

Queremos afirmar, com segurança, o protagonismo dos pobres e injustiçados na luta por seus direitos e por sociedades de bem viver, para que sejam, cada vez mais, sujeitos dos seus direitos. Queremos articular-nos com todas as pessoas, os movimentos sociais populares e iniciativas organizadas, que lutam pelo pleno reconhecimento e garantia de todos os direitos de todas as pessoas. Reforçaremos as iniciativas sociais, políticas e eclesiais que estão empenhadas na conquista e construção de sociedades assentadas sobre a globalização da solidariedade e a verdadeira participação democrática, contra a globalização da indiferença e corrupção da democracia.

Esse encerramento do Ano Jubilar foi um kairós – momento oportuno: solidarizamo-nos com as 3.500 famílias do Acampamento de Sem Terra Dom
Tomás Balduíno (no Município de Corumbá, GO), bem como os Movimentos Sociais do México pela conjuntura emblemática em que estão vivendo.
Para nos animar nesse caminho, em Assembleia, escolhemos a Irmã Maria Madalena dos Santos, de Goiânia, GO (coordenadora), Irmã Doraíldes da Silva Matos, de Araxá, MG, Frei José Fernandes Alves, de Goiânia, GO e Samuel dos Reis Viana, de Palmas, TO, também como membros da Coordenação para o próximo triênio. Decidimos como eixos prioritários de nosso trabalho a promoção e a formação em Direitos Humanos, a responsabilidade ambiental e a articulação de Fé e Política. Renovamos nosso compromisso com a continuidade dos vários cursos e iniciativas de educação em Direitos Humanos, da publicação do livro Agenda Latino Americana, a organização de seminários, a publicação de materiais
de apoio etc.

Encerrando nosso Encontro-Assembleia, acolhemos afetuosamente o recado de nosso muito querido irmão Pedro Casaldáliga: “não se distanciem dos pobres, não os abandonem”.

Na fraternura e na esperançosa espera.
As/os participantes do 25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

Advento: Tempo de Encontros

por Ir. Valéria Moutinho, op

Jesus, o Filho de Deus, revestido de nossa humanidade, vem até nós para nos ensinar, com sua vida, morte e ressurreição que Deus é Amor: que ele é nosso Pai e quer que nos amemos como irmãs, como irmãos.

Com o ADVENTO, caminhamos para a plenitude desse encontro, para o centro do tempo, o kairós de Deus.

O profeta Jeremias afirma-nos que chegará o dia no qual Javé cumprirá as promessas que fez ao povo de Israel. Um descendente de Davi exercerá o direito e a justiça. Eis que ele vem para realizar o sonho de Deus e dar esperança aos que contam unicamente com a fidelidade do Pai (cf. Jr 33,14-16).

A Liturgia, dimensão pedagógica da Igreja, nos faz viver o ADVENTO deixando que Deus rompa seu silêncio e fale ao nosso coração.

O profeta Baruc reforça nossa esperança, nosso anseio de vida nova. Convida Jerusalém a trocar a roupa de luto e de aflição para viver no esplendor e na glória que vem de Deus. Ele vai criar a paz, fruto da justiça, fundada nos valores religiosos (cf. Br 5, 1-9).

Nesse tempo de espera, três protagonistas veem  ao nosso encontro ajudando-nos a descobrir que somos mistério, dentro do grande mistério que é Deus.

O primeiro é Isaías que nos apresenta a boa notícia : “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz brilhou para os que habitavam um país tenebroso”(Is 9,1).

Jesus vai realizar essa profecia nos afirmando : “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas possuirá a luz da vida” (Jo 8,12). Mateus nos afirma : “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5, 14 a).

O que temos feito dessa luz que nos habita?

A luz, sem testemunho, torna-se opaca. Ela brilha somente por meio de nossas boas obras.

O segundo protagonista é João Batista, o precursor. Surge no deserto, na periferia e nos convida à conversão pessoal que tem implicações sociais, políticas, econômicas e religiosas.

“Preparem os caminhos do Senhor, endireitem suas estradas” (Lc 3,4). Se não nos convertermos, como receber o Filho amado de Deus?

Lucas menciona que João anunciava a Boa Nova de muitos outros modos (cf. Lc 3, 10-18).

Nós, Família Dominicana, pregadoras e pregadores, estamos atualizando a Boa Nova para o mundo de hoje?

Procuramos, na cultura atual, os caminhos pelos quais Deus está chamando seu povo?

Ouvimos os apelos que Deus está nos dirigindo para que nosso jeito de ser, de viver, de anunciar, de expressar favoreça o anúncio do Evangelho?

Nosso terceiro encontro é com Maria, a jovem simples e pobre de Nazaré. Aceitando ser a MÃE do Filho Amado de Deus, torna-se o protótipo vocacional de toda aquela e aquele que diz SIM ao Projeto de Deus.

Maria é bem aventurada e o fruto de seu ventre é bendito. Cheia do Espírito Santo, evoca as maravilhas  que Deus realizará em todas as gerações. Maria se denomina SERVIDORA do Senhor. Seu primeiro gesto foi o de levar Jesus a Isabel, sua prima, com paz e alegria. Maria evangeliza com sua presença, ensinando-nos que viver de Deus é prestar serviço àquela e àquele de quem nós nos fazemos próximas e próximos. O caminho que nos leva a Deus passa pelas necessidades dos outros (cf. Lc 1, 39-45). Com Maria e Isabel, a categoria dos excluídos passa para a história.

A vinda do Filho de Deus é marcada pela universalidade.

O sonho de uma vida digna é para todos porque o Deus da Justiça e do Amor está com mulheres e homens de boa vontade, de coração aberto que partilham esperança e ações concretas. Pessoas que, com suas vidas, são mediadoras do amor de Deus junto aos mais pobres. Que estes se sintam amados por Deus e capazes de, unidos, lutarem não mais somente por um novo mundo possível, mas necessário e urgente. Por isso, Jesus os proclamou felizes (cf. Mt 5,2) e agradeceu ao Pai a abertura deles diante da revelação que Jesus lhes fez das coisas de Deus (cf. Mt 10, 25).

ADVENTO, Tempo de Encontros !

Que Isaías, João Batista e Maria nos preparem para receber Jesus e que Ele pronuncie em nosso coração uma Palavra igual a Ele. Só assim nosso SER será capaz de um AGIR significativo.