25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz e Carta final do Encontro

por Paula Daniela Alves

“Diversão, zueira e festas são coisas que fazem parte da vida, mas nossa existência não se limita somente a isso. Não se limita a sermos apenas meros expectadores. Acredito que devemos ser protagonistas, que podemos e devemos interferir na estrutura social, lutando para que o mundo seja um lugar onde a humanidade possa crescer em graça e não proliferar o ódio, a discriminação e a guerra. E é por acreditar nisso que participar do 25º encontro da Comissão Dominicana de Justiça Paz foi um momento único de aprendizado, partilha e lógico um pouquinho de diversão. Além do mais, conhecer pessoas que lutam de corpo e alma por uma causa é sempre inspirador, e é esse retrato que se cristalizou na minha mente, como uma imagem que não deve ser esquecida, especialmente quando o Mingas contava sua experiência nas comunidades rurais.”

Durante os dias 22 a 24/11, 104 pessoas, entre frades, freiras e leigos discutiam, compartilhavam e planejavam ações para compor uma sociedade mais justa no 25º encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz, na cidade de Goiânia (GO).

Na sexta houve a assembleia eletiva onde foram escolhidos os membros da nova comissão, onde o MJD teve direito a voto sendo representado pelos amigos Bruna Alfonsi, Ryan Lopes e Rafael Oliveira. Onde quase que um dos nossos foi eleito!

No sábado, após um pequeno preludio, é passada a palavra ao assessor do evento, frei Raul Vera, bispo mexicano, confrade dominicano, companheiro de luta nos movimentos sociais. Frei Raul, a partir de um trecho do Deuteronômio que narra sobre o jubileu das dívidas após 7 anos, reflete sobre a sociedade de hoje e a importância indevida aos bens materiais e o consumismo desenfreado. Mas com palavras de esperança ressalta que ter dimensão comunitária, é trabalhar para a construção do reino de Deus, e que esse deve ser o verdadeiro sentido da vida humana.

Bispo Dom Raul Vera, op

Bispo Dom Raul Vera, op

Esse momento é seguido de uma partilha e discussão em grupo, aonde dois de nossos companheiros de caminhada, Paula Daniela Alves e Rafael Oliveira vão à frente da plenária como relatores de seus grupos de discussão. Prosseguindo nesse tema, nosso assessor discursa sobreos males do capitalismo, exemplificando com a história dos movimentos sociais mexicanos e para finalizar sua fala conta um pouco sobre seu encontro com o Papa.

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E para terminar o dia com júbilo nada melhor que uma celebração eucarística emocionante seguida de uma confraternização mais do que animada, típica da família dominicana. No dia seguinte, para iniciar a plenária, foi mostrado um vídeo contando um pouco da história dos últimos 24 encontros. Após o momento histórico frei Raul fez uma explanação incrível com base num trecho do Evangelho de Lucas, “eu Te louvo, pois escondesses as coisas dos sábios e inteligentes, e as entregastes aos pequenos”.  Sua fala é carregada de emoção ao dizer que o reino de Deus pode ser vivenciado aqui na terra, a partir do momento que a sociedade se organiza em prol da justiça, dos direitos humanos e de uma vida digna.

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E inflamados com essas palavras formaram-se grupos de discussão com o tema “como manter a fidelidade aos pobres e as suas causas?”. E novamente o MJD se destaca, tendo três dos quatro membros participantes escolhidos como relatores de seus grupos. Na parte da tarde há um momento para partilhar iniciativas, fazer convites para novas ações e muitas trocas de contatos. E é com a coragem renovada que o MJD se despediu desse encontro.

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Carta final do 25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

– 25 anos gritando por Direitos Humanos –

Viemos inspirados e inspiradas pela luz inicial de Domingos e seus seguidores e seguidoras que, ao longo dos oitocentos anos da história da Família Dominicana, viveram seus compromissos com a Justiça e Paz. Viemos provocados pelo testemunho de tantos irmãos e irmãs que continuam ainda hoje lutando junto ao povo em busca da libertação. Viemos desafiados pelos problemas de nossa época, marcada pela desigualdade social, pela crise das instituições e pelo esgotamento dos recursos naturais. Viemos movidos pelas novas luzes e testemunhos provocados pelo Papa Francisco, que convoca a Igreja a abrir-se para o mundo e às problemáticas contemporâneas de todos os povos. Viemos celebrar 25 anos da COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL, no marco dos 800 anos da fundação da Família Dominicana, dos 500 anos da conversão de Las Casas e dos 40 anos do martírio de Frei Tito de Alencar.

Somos 104 irmãos e irmãs do Brasil, do Uruguai e do México. Somos leigos, leigas, irmãs e frades que trabalham familiarmente para efetivar a Justiça e Paz nos mais variados espaços: nos movimentos sociais populares, nos organismos da Igreja, no mundo da Política e da Educação, com os jovens, as mulheres, os negros, os indígenas, os camponeses, os povos de rua, os favelados, os pobres. Testemunhamos advertências e esperanças.

A COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL é a casa de acolhida para todos e todas que atuam e trabalham nas bases, ameaçados, difamados e perseguidos. Aqui, bebemos a água pura da fraternidade e partilhamos o pão sagrado da amizade e do companheirismo.
Fomos animados e provocados por Frei Raul Veras, bispo de Saltillo, no México. Ajudou-nos a refletir sobre o papel da Igreja nos dias atuais, destacando a urgência de que ela se volte para os pobres, seus dilemas, suas dores e suas esperanças. A radicalidade do compromisso da Igreja com os sofredores e a proximidade com as problemáticas sociais e políticas, são a fonte central de nossa dimensão evangelizadora. O compromisso ético e profético com as causas que afetam os seres humanos de hoje é por onde coincidimos com todas as demais religiões do mundo que seguem os princípios da solidariedade, da Justiça e Paz.

O compromisso dominicano com a verdade passa pela adesão a esses princípios. A Igreja deve assumir radicalmente a dimensão comunitária do Evangelho, pois o Reino de Deus é uma realidade coletiva que exige uma recusa do sistema econômico perverso que cresce no nosso meio, através de várias formas de egoísmo e individualismo. Como definem as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015, “a Igreja, como mãe, deve ser a primeira a se interessar pela defesa dos Direitos Humanos”. (112).

Tendo sido um dos dez bispos a participar da recente audiência do papa Francisco com os movimentos sociais populares, Dom Raul partilhou as impressões e as repercussões da audiência de um dia completo dos militantes com o papa. Contou-nos do entusiasmo com que o povo entrou no Vaticano e provou uma Igreja presente, aberta para os pobres e solidária com suas lutas. Refletimos sobre a espiritualidade bíblica na ótica dos empobrecidos, o nosso trabalho com os movimentos sociais populares, a formação e o trabalho em rede e com novas tecnologias, bem como sobre a atualidade de nossa evangelização em nossos dias.

Foi intensa a festa dos 25 anos, mas ainda incompleta. Ela só será vivida em plenitude quando todos os direitos forem garantidos para e com todas as pessoas, como nos ensinou Frei Bartolomeu de Las Casas, já no século XVI: “todos os direitos para todos”. Precisamos deixar claro que ainda há muito caminho a ser andado para superar a redução do Cristianismo a uma Religião de salvação individual. Há práticas de indiferença em relação aos direitos dos empobrecidos também nos espaços eclesiais, e há mesmo os que justificam a apropriação individualista e a avareza individualista. Estamos longe de colocar realmente os bens e os dons pessoais e eclesiais a serviço dos direitos dos empobrecidos e em favor de sociedades
assentadas sobre a Justiça e promotoras da Paz. Por isso, foi muito estimuladora a reflexão de Frei Raul a partir do Deuteronômio e do Evangelho da comunidade de São Lucas.

Frente a essa realidade, assumimos que a missão da COMISSÃO DOMINICANA DE JUSTIÇA E PAZ DO BRASIL tem sido e continua sendo de profecia, no sentido dado a ela por Jesus de Nazaré. Por um lado, nosso lugar de missão é todo território em que vivem pessoas com direitos parcialmente realizados ou negados de forma completa. Com eles e elas, queremos acolher, publicar e celebrar tudo que há de positivo e libertador em sua vida. Como Jesus, reconhecemos a fé, a sabedoria e a solidariedade que já existem em sua vida: “eu te louvo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e orgulhosos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, isso foi de teu agrado” (Lc, 10, 21-21).

Por outro lado, assumimos que, sem medo, precisamos ser firmes na crítica e denúncia do que impede que todas as pessoas tenham garantidos seus direitos. Isso abarca a autocrítica de tudo que é necessário em nossa vida e prática, a crítica da política e da economia dominantes, da comunicação controlada por grandes empresas, da agricultura química e de monoculturas do agronegócio, dos preconceitos e da exclusão que negam a dignidade dos pobres, dos indígenas, dos negros, das mulheres, dos jovens.

Queremos afirmar, com segurança, o protagonismo dos pobres e injustiçados na luta por seus direitos e por sociedades de bem viver, para que sejam, cada vez mais, sujeitos dos seus direitos. Queremos articular-nos com todas as pessoas, os movimentos sociais populares e iniciativas organizadas, que lutam pelo pleno reconhecimento e garantia de todos os direitos de todas as pessoas. Reforçaremos as iniciativas sociais, políticas e eclesiais que estão empenhadas na conquista e construção de sociedades assentadas sobre a globalização da solidariedade e a verdadeira participação democrática, contra a globalização da indiferença e corrupção da democracia.

Esse encerramento do Ano Jubilar foi um kairós – momento oportuno: solidarizamo-nos com as 3.500 famílias do Acampamento de Sem Terra Dom
Tomás Balduíno (no Município de Corumbá, GO), bem como os Movimentos Sociais do México pela conjuntura emblemática em que estão vivendo.
Para nos animar nesse caminho, em Assembleia, escolhemos a Irmã Maria Madalena dos Santos, de Goiânia, GO (coordenadora), Irmã Doraíldes da Silva Matos, de Araxá, MG, Frei José Fernandes Alves, de Goiânia, GO e Samuel dos Reis Viana, de Palmas, TO, também como membros da Coordenação para o próximo triênio. Decidimos como eixos prioritários de nosso trabalho a promoção e a formação em Direitos Humanos, a responsabilidade ambiental e a articulação de Fé e Política. Renovamos nosso compromisso com a continuidade dos vários cursos e iniciativas de educação em Direitos Humanos, da publicação do livro Agenda Latino Americana, a organização de seminários, a publicação de materiais
de apoio etc.

Encerrando nosso Encontro-Assembleia, acolhemos afetuosamente o recado de nosso muito querido irmão Pedro Casaldáliga: “não se distanciem dos pobres, não os abandonem”.

Na fraternura e na esperançosa espera.
As/os participantes do 25º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

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