Pastor, profeta, mártir da justiça e do amor

por frei Carlos Josaphat, op*

Em uma vida relativamente curta (1917-1980), Oscar Romero se projetou na América e no mundo como “a voz dos sem voz”, o pastor, o profeta, o mártir da verdade, da justiça e do amor universal. Vem do povo, se volta para o povo e com o povo permanece. Filho de uma família modesta e numerosa foi educado como o segundo de oito irmãos, graças à labuta de um pai funcionário dos correios e de uma mãe que zelava por tudo e por todos em uma casa humilde em El Salvador. O país gozava de certa prosperidade, mas ia sendo dominado pelos tiranos do dinheiro e do poder, concentrados em poucas mãos opressoras. Vê-se que dom Romero vem do povo sofrido, se dedicará desde cedo a esse povo, aprendendo dele a beleza dos valores humanos coroados pelas virtudes evangélicas. Desde os 12 anos começou a trabalhar. Aos 14, sente o primeiro apelo ao sacerdócio e entra para o Seminário.

Mas tem que interromper seus estudos, uns seis anos mais tarde, para voltar a ajudar a família, então mais necessitada. Consegue prosseguir sua formação eclesiástica, em São Salvador. Sua inteligência e suas qualidades de dedicação são bem reconhecidas. É enviado por seu bispo a Roma, para estudar e formarse em Teologia. Aí será ordenado em 1942. A Segunda Guerra Mundial o obrigava a voltar a seu país, sem levar avante o projeto de doutorado em Teologia. Colegialidade e Diálogo Será então um bom padre, piedoso, voltado a atender o povo, em trabalho pastoral de uns 20 anos.

Oscar Arnulfo Romero

Note-se que é pastor que conhece suas ovelhas, e a elas se consagra. Mas, ainda, não manifesta uma especial tendência ou vocação para o social, em um país vítima das maiores injustiças. Sua iniciação na luta pacífica pela justiça social vem pela prática da colegialidade. Como as Igrejas de Cristo na América latina, a Conferência Nacional de El Salvador se abria ao apostolado popular e à preocupação com os imensos e terríveis problemas sociais que só faziam se agravar. Ora, padre Oscar Romero é nomeado secretário da Conferência em 1966, logo após o encerramento do Vaticano II. Foi o momento de seu despertar evangélico à grande causa da justiça e da solidariedade em benefício de todo povo salvadorenho. Doravante, irá convivendo e dialogando com o povo, ensinando e aprendendo solidariedade e mútua ajuda. Eleito bispo auxiliar em 1974, arcebispo de São Salvador em fevereiro de 1977, dom Romero vai crescendo em sua dedicação pastoral. Em março de 1977, o assassinato de um jesuíta, lutador pela justiça e seu amigo, o padre Rutílio Grande, é como o momento providencial para a plena conversão ao Amor Universal, ao dom total do arcebispo Romero ao Reino da Justiça e da Paz. “Voz dos sem voz” Conhecendo os riscos que corria, ele passa a ser “a voz dos sem voz”, o denunciador de todas as injustiças, sabendo que trilha assim o caminho para o martírio.

De 1977 até a data de seu martírio em 1980 seus discursos, seus sermões, suas cartas constituem uma ampla e bela antologia de condenação das injustiças e violências, bem como da exaltação do amor que dá vida pelos irmãos. “A força espiritual da palavra de dom Romero” é um lindo e pequeno florilégio coligido por Pablo Richard. (Paulinas, 2005). Em algumas das sentenças, fachos de luz e de fogo, dom Romero se define e nos oferece a mensagem de sua vida de pastor e profeta, que se expõe e dispõe ao martírio, pregando liberdade, justiça e paz para seu povo: “Eu não sou mais que o humilde ressoar de Deus em meu povo” (02.10.1977). “A palavra permanece. É este o grande consolo de quem prega. Minha voz desaparecerá, mas minha Palavra, que é Cristo, permanecerá nos corações que quiserem acolhê-la” (17.12.1978). “O pregador não somente ensina, o pregador aprende. Vocês me ensinam. A atenção de vocês é também, para mim, inspiração do Espírito Santo” (Julho de 1978). “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho. Um bispo morre, mas a Igreja de Deus, que é o povo, na perecerá jamais”, proclama em março de 1980, uns dias antes de sua morte. No dia 24 de março de 1980, os escravizadores do povo mandam assassinar o arcebispo no altar. É imolado, dá sua vida ao celebrar o sacrifício daquele que deu sua vida pela humanidade. E então, dom Romero ressuscitará na glória eterna de Deus, é beatificado pela Igreja (em outubro deste ano do jubileu conciliar). Mas, sobretudo, está sempre presente e venerado no coração do povo. Ele sempre viu Deus no povo, e o povo em Deus. Por isso, resplandece qual maravilhoso modelo de pastor, de doutor, de profeta, de mártir da Igreja de Cristo na América Latina.

 

* Texto publicado originalmente no informativo da província Frei Bartolomeu de Las Casas

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