Famílias são despejadas de terras em que viviam há 10 anos

por Rafael Oliveira*

 

Ontem (17/04/2018) acompanhei com colegas da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mais uma operação de despejo de famílias camponesas aqui no Tocantins. Dessa vez foi na comunidade Gabriel Filho, onde as famílias já vivem há quase 11 anos. Elas plantam em fartura: mandioca, arroz, feijão, milho, abóbora, abacaxi, quiabo, pimenta de todos os tipos e por aí vai. A maioria tem umas galinhas também. Algumas outras têm umas cabeças de gado, que acabam sendo a “poupança” para casos emergenciais.

Leia também a Nota da CPT sobre o caso. 

Isso é o que chamamos “dar função social à terra”. Mas na visão do latifúndio burguês, isso chama-se “invasores de terra”.

Ontem, 18 famílias – e coloque aí no mínimo umas 100 pessoas no total – foram expulsas sem direito algum pelo poder Judiciário. Segundo o Juiz Fabiano Ribeiro, tem mais direito o grileiro que nunca exerceu posse naquelas terras. Esse mesmo grileiro que responde processo criminal pelo assassinato em 2010 da liderança Gabriel Filho, que deu nome à comunidade.

E o grileiro tava lá acompanhando toda operação, livre, ao lado dos mais de 15 policiais militares que estavam apenas “cumprindo ordens”.

As perguntas que mais ouvíamos ontem: para onde nós vamos? para onde vamos levar nossas coisas, nossos animais? como vou criar minha filhas?

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Com uma tristeza e indignação no olhar, a dona Eulina disse “tenho a mandioca ainda para colher, tenho 15 mil pés de abacaxi. Vai fazer o que? Minha vida era toda aqui, minha e da minha família. Minhas meninas cresceram todas aqui, tenho menina que casou aqui também. Já perdemos até um bebê aqui. Quando ficou sabendo que vinha [a operação de despejo], ela passou mal e perdeu o bebê”.

Quem responde a essas perguntas?

Como já lemos em tantos despachos de juízes por essas cantos do Tocantins, “não é papel do judiciário promover a reforma agrária”. Mas é papel do judiciário criar um problema social como deixar 100 famílias (e tantas outras que existem pelo estado) sem saber onde vão dormir na próxima noite? Aliás, na primeira noite pós-despejo, as famílias foram aterrorizadas com diversos tiros vindos da sede da fazenda durante toda madrugada.

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A sensação de não saber mais o que fazer toma conta nesses primeiros momentos. Difícil digerir que tanta gente seja deixada de lado como se não existissem. Mas ainda existem recursos judiciais e, principalmente, ainda existe a força da comunidade. Ainda durante a operação de despejo, as mulheres se reuniram num acampamento em uma área vizinha e rezaram a Deus. Cantaram seus cantos, pediram suas preces, deram as mãos, fizeram uma roda de união. Uma das crianças disse que estava triste por ter que sair dali, ela não queria ir pra cidade. “Eu gosto daqui”.

* Agente da Comissão Pastoral da Terra de Tocantins e membro do Movimento Juvenil Dominicano.

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