O laicato dominicano e a pregação

por Frei Bruno Cadoré, O.P.
Mestre da Ordem dos Pregadores

Roma, 22 de dezembro de 2013.

Novena do Jubileu da Ordem (2014)

“Derramarei o meu Espírito em toda carne;
e vossos filhos e vossas filhas profetizarão,
vossos anciãos terão sonhos,
vossos jovens terão visões” (Jl 3,1)

Queridos irmãos e irmãs:
Com grande alegria escrevo esta carta, no aniversário da confirmação da Ordem, para abrir o ano da novena do jubileu consagrado ao tema “O laicato dominicano e a pregação”. Este ano se inicia, pouco tempo depois da conclusão do Ano da fé, pelo Papa Bento XVI, enquanto presidia o Sínodo sobre a nova evangelização e a transmissão da fé (dentro do qual se comemorou a abertura do Concílio Vaticano II) e concluído pelo Papa Francisco, com a promulgação da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.
Deste modo, nos convida a dirigir nossa atenção para os leigos dominicanos, em um contexto no qual a Ordem dos Pregadores está chamada a acolher estes múltiplos convites para uma renovação do zelo pela evangelização. O último capítulo geral dos frades escolheu como tema para a celebração do Jubileu, este lema tão simples quanto radical: “Enviados para pregar o Evangelho”. Este lema faz eco ao envio dos primeiros frades como pre-gadores a serviço da Igreja, totalmente dedicados a evangelizar com a Palavra de Deus. O lema é simples, porque dirige toda a nossa atenção para o central do serviço que a Igreja espera da Ordem: anunciar o Evangelho. O lema é radical, porque, mais além de todas as dificuldades que uns ou outros possam encontrar e mais além das incertezas, que possamos ter em relação ao que devemos serou fazer, nos recorda que devemos, antes e acima de tudo, estarmos abertos a esse «envio» do qual provém nossa identidade. Hoje em dia, talvez mais do que nunca, o tema dos leigos dominicanos deve nos ajudar a descobrir que a todos nós, como membros da família dominicana, nos envia juntos para servir dentro da conversação de Deus com o mundo, anunciando o Evangelho da paz.

Uma « comunhão dominicana » enviada a pregar o Evangelho

Evidentemente, as coisas evoluíram desde os tempos do começo da Ordem. A Igreja, por exemplo, continuou refletindo sobre a pregação. Também continuou refletindo sobre os leigos e o seu papel essencial no testemunho e no anúncio do Evangelho. O Concílio Vaticano II foi um momento especialmente importante para isso. Igualmente, continua a reflexão, baseada em experiências concretas, sobre o modo no qual os leigos podem ser par-te integrante das ordens e congregações, de novas comunidades e tradições da vida espiritual. O ponto comum de tudo isto reside em uma forte convicção que Paulo VI enfatizou durante o Concílio: a Igreja se converte no que ela mesma é, na medida em que se faz, no mundo, verdadeiramente conversação, isto é, na medida em que, anunciando o evangelho no mundo, ela deseja ser testemunha de que o Deus da revelação bíblica vem, em Jesus, ao encontro da humanidade para conversar com ela.
Já faz muitos anos, eu tive a sorte de participar em Haiti na vida de uma paróquia no momento em que nasciam pequenas comunidades eclesiais chamadas «fraternidades». Em outras paróquias, o nome se transformou e, seguida, em «Ti Legliz » (pequenas Igrejas). Os dois termos nos recordavam que “fraternidade” era o nome com o qual, nos primeiros séculos, se designavam as assembleias da Igreja. A fraternidade, na qual se entrelacem conjuntamente o compartilhar da fé e o tornar-se humano de cada um, era também o crisol do testemunho e da missão.
Por isso, era designado como o selo do certificado de nascimento da Igreja…
Embora seja verdade que as coisas tenham se modificado desde os tempos do começo da Ordem, no entanto, percebemos certas analogias que nos recordam aquilo que incendiou em Diego e em Domingos, o fogo da pregação: as mudanças radicais no modo de viver da Igreja, causadas pela mutações da sociedade feudal, a emergência de novos conhecimentos e de novas maneiras de concordar com as mudanças, as transformações profundas da organização das sociedades e das cidades. No meio destas mudanças, nasceram grupos de leigos que convidavam a Igreja a se movimentar, a se aventurar fora das estruturas demasiado estabelecidas e demasiado rígidas para evitar o risco de afogar o sopro recebido. Estes «pobres», estes «humildes» escolhiam uma vida que unia uma presença humilde no mundo, uma palavra autêntica e viva pregada como uma boa nova e uma certa radicalidade em seu modo de vida. Animava-os a intuição de que a radicalidade pelo Evangelho, vivida em uma humanidade plena, era o melhor caminho para «interpretar» a Palavra e manifestar a presença d’Aquele que vem para a salvação do mundo. Entre estes grupos de leigos, alguns receberam do Papa Inocêncio III, a possibilidade de realizar uma pregação itinerante e mendicante. As «Ordens Terceiras» de mendicantes foram, de uma ou outra maneira, herdeiras destes movimentos que devem ser diferenciados das instituições de vida religiosa.
Nesta efervescência de uma Igreja que busca encontrar de novo o vigor de sua autenticidade, nasceu a “Santa Pregação de Pruilhe”, quando alguns leigos se uniram à aventura incipiente de Domingos. Ao reler estes tempos dos começos, não posso deixar de pensar que,quando Domingos recebeu as primeiras irmãs convertidas, que vieram a se colocar sob a sua proteção e em seguida a Ermengarda Godoline e seu esposo Sancho Gasc(8 de agosto de 1207), começou a sonhar com esta aventura, a imagem do grupo, do qual fala São Lucas em seu Evangelho e que acompanhava Jesus enquanto “passava pelas cidades e povoados proclamando o Reino de Deus” (Lc 8, 1-3). Esta breve passagem do Evangelho, segundo São Lucas, que descreve Jesus pregador está no coração dos capítulos 7 ao 10. À luz destes textos, nós também podemos nos alegrar de sermos «enviados a pregar o Evangelho» segundo o modo da fraternidade. Seguindo os passos da «Santa Pregação», nos envia como uma família a pregar o Evangelho. Por isso, a noção de «família dominicana» não é apenas uma maneira de expressar as convergências entre vários grupos que têm um mesmo propósito. Ela expressa um modo de evangelização e, neste sentido, os leigos dominicanos nos recordam esta exigência baseada no Evangelho.
A unidade da nossa Ordem nasce da sua missão de evangelização: os leigos, irmãs e frades da Ordem somos membros de uma mesma família, que recebe a sua identidade do fato de ser enviada a pregar o Evangelho, dando testemunho de um Deus, que vem dialogar com o mundo. Mais ainda, poderíamos dizer que a identidade «dominicana» é a de uma família (a de uma «comunhão») constituída pelo vínculo orgânico entre evangelização e contemplação daquela verdade que é a Palavra viva que veio a este mundo. É o que nós tratamos de viver sob três modalidades: a oração, o estudo e a fraternidade, de maneira específica segundo o estado de vida de cada um. No Evangelho segundo São Lucas, citado mais acima, o envio dos Doze, e em seguida dos setenta e dois, se inscreve nesta dinâmica na qual Jesus se revela como a Palavra, que cumpre a promessa e dá a vida, a Palavra que devemos escutar e por em prática, a Palavra que reúne os irmãos. Ao recomendar os Pregadores, o Papa Honório os apresentava como totalmente dedicados à evangelização através da Palavra de Deus. Esta consagração à Palavra, pela pregação e pela contemplação («Consagra-os na verdade: tua Palavra é a verdade» Jo 17, 17),permite nossa unidade. Nesta perspectiva, a dimensão de unidade da família dominicana é essencial, porque ela está ligada à missão de pregação do Reino (a continuação da oração do Filho ao Pai, no Evangelho segundo João, é explícita, e evoca o envio ao mundo e pede a unidade: Jo 17, 18-23).
É evidente que a Ordem dos Pregadores não tem o monopólio da pregação nem da evangelização na Igreja, porém me parece que a sua «confirmação» há quase oito séculos a ordenou, como «Santa Pregação», a servir o carisma da pregação na Igreja. Isto é, a servir esta dimensão essencial da Igreja segundo a qual, esta última se constitui e é estabelecida pela graça do Espírito de Cristo. Este serviço não toma somente a forma do ato de pregar ou de evangelizar, mas que além do mais, pelo próprio fato de constituir una família unida pela pregação, a Ordem recorda no seio da Igreja que a evangelização contribui para estabelecer a Igreja como fraternidade e comunhão.

Conversação e comunhão

Quero propor que recebamos o tema deste ano: « O laicato dominicano e a pregação » à luz destas três evocações (da Igreja fraternidade, dos inícios da Santa Pregação da Ordem e da unidade da família dominicana) e que façamos deste tema a inspiração de nossa reflexão. A reflexão anterior nos terá feito perceber que, a formulação deste tema abre horizontes muito amplos para compreender melhor como o compromisso dos leigos na família dominicana é determinante para a missão de pregação da Ordem.
«Aos leigos lhes corresponde, pela própria vocação,tratar de obter o reino de Deus, administrando osas-suntos temporais e ordenando, segundo Deus. Vivem no século, isto é, em todos e cada um dos poderes e ocupações do mundo, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as que sua existência está como entretecida. Ali estão chamados por Deus, para que, desempenhando sua própria profissão, guiados pelo espírito evangélico, contribuam para a santificação do mundo como de dentro, a modo de fermento» (Lumen Gentium, 31). Dentro desta perspectiva geral, a expressão «leigos dominicanos» permite constatar uma certa diversidade entre aqueles homens e mulheres que hoje em dia desejam, pela graça de seu batismo, participar na missão de Cristo e «fazer brilhar a presença de Cristo no coração da humanidade» (Prólogo da Regra de 1968), seguindo os ensinamentos de São Domingos. Todos, como leigos, têm «a nobre obrigação de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e aceita por todos os homens de qualquer lugar da terra» (Decreto sobre o apostolado dos leigos, § 3). E todos são convidados a fazê-lo contribuindo à constituição desta «família» dominicana envia-da a pregar o Evangelho.
Como leigos dominicanos, « continuam fiéis à sua vocação, esforçam-se por deixarem-se penetrar pelo espírito de São Domingos: por meio da contemplação assídua de Deus, unida à oração e ao estudo, alimentarão uma fé firme; darão testemunho da mesma com força, cada um segundo a sua própria graça e condição, para ilu-minar os fiéis que compartem a sua fé e aos homens privados da luz de Cristo. Assim, graças a eles, a Ordem tem a possibilidade de alcançar mais plenamente o seu objetivo. Eles se dedicarão a reconhecer e compartilhar as mi-sérias dos homens, suas angústias e suas aspirações. Guiados pela luz do Evangelho, segundo o espírito da Igreja, e união com os homens de boa vontade, eles fomentarão, pelo apostolado da verdade, tudo o que é verdadeiro, justo e santo, e se esforçarão em ajudar a todos os homens, na medida do possível, com um espírito de alegria e de sincera liberdade» (Prólogo da Regra de 1968).
Entre estes leigos dominicanos, os membros das fraternidades leigas dominicanas têm um lugar privilegiado, visto que fazem a opção de comprometer toda a sua vida por meio da promessa de contribuir para a missão de Cristo, participando de modo específico como membros da Ordem. Eles inscrevem o seu compromisso com a Palavra viva não apenas na sua vida de batizados, mas também procurando um equilíbrio em sua vida e em suas diferentes responsabilidades para que sejam uma «pregação», um serviço à conversação de Deus com o mundo. Ao mesmo tempo, eles inscrevem na vida da Ordem, a exigência de orientar a pregação da Palavra à constituição da Igreja de Cristo por meio da busca da comunhão e da unidade. Sabemos que na atualidade é necessário refletir sobre a diversidade existente no interior destas fraternidades para buscarmos juntos o modo de aceitar, promover e conjugar cada vez mais tal diversidade, buscando reuni-la no testemunho concreto de uma vida leiga que deseja ser pregação.
Existem também outras maneiras, segundo as quais os leigos decidem participar nesta missão e pertencer à «família dominicana», sem que o seu compromisso seja sob a mesma forma: leigos associados a numerosas congregações de irmãs, a um determinado convento oua uma obra dominicana específica; herdeiros das «milícias» medievais; membros do Movimento Juvenil Dominicano Internacional; Voluntários Dominicanos; membros das Fraternidades Lataste e dos movimentos que se inspiram em sua intuição de Betânia. Cada umdes-tes grupos tem um modo próprio de compromisso com a família dominicana.
E, como em toda família, também estão os amigos que, sem ter feito a opção explícita de uma pertença, compartem a missão, por meio de uma colaboração profissional que quer se arraigar no espírito de São Domingos (por exemplo os profissionais do ensino, da edição, da comunicação), ou por meio de opções de evangelização (como é o caso, por exemplo, de numerosos leigos comprometidos na missão de pregar o Rosário na tradição dominicana). A noção de família dominicana, de comunhão dominicana, permite reunir todas estas dimensões, com as monjas, os frades, as irmãs de vida apostólica, os membros dos institutos seculares e das fraternidades sacerdotais, em nome da evangelização, missão comum pelo Reino, no respeito e na autonomia da vocação pró-pria de cada um. (cf. Documento da Bologna).
Esta diversidade é importante para explicar o sentido do vínculo entre os leigos dominicanos e a pregação. Devemos destacar que entendemos o termo «pregação» no sentido mais amplo, mesmo se levando em conta a especificidade da pregação da homilia durante a liturgia, definida pela disciplina da Igreja. “Vossos filhos e vossas filhas profetizarão!” Evangelizar com a Palavra de Deus, proclamar o Reino de Deus, anunciar o Evangelho, pregar o Evangelho da paz, difundir a presença do Cristo… todas estas expressões fazem eco à profecia de Joel: todos profetizarão, falarão “da parte de Deus”. Os termos do Concílio Vaticano II, expressam claramente a especificidade da vocação leiga à evangelização e, nesta mesma linha devemos situar o vínculo dos leigos dominicanos com a missão de serviço da própria pregação da Ordem. Esta especificidade é bivalente. Ela provém dos ambientes específicos nos quais vivem e testemunham os leigos dominicanos e nos quais, por seu serviço de evangelização, eles permitem que a Ordem leve a cabo a sua missão, que «alcance mais plenamente a sua finalidade».
Mas provém também da sua contribuição à Ordem e à comunhão dominicana. Esta é outra maneira, complementar, de contribuir para o cumprimento da missão da Ordem. Foram as mulheres convertidas que fizeram Domingos se conscientizar da necessidade de protegê-las.Foram os primeiros pobres valdenses que puseram em evidência de como o testemunho da radicalidade era portador de um testemunho evangélico.
Parece-me que os leigos dominicanos possam permitir que a pregação da Ordem alcance mais plenamente a sua finalidade pelo próprio fato da realidade da vida leiga, e isto de várias maneiras. Como com os frades e as irmãs da Ordem, a pregação dos leigos dominicanos se enraíza de modo concreto na experiência da vida. É por isso que a riqueza da sua contribuição específica à pregação da Ordem, vem da sua experiência da vida familiar e profissional, da sua experiência de paternidade, da sua experiência de vida de Igreja, a experiência de ser jovem nas sociedades contemporâneas, a experiência singular do batizado que deve dar conta da sua fé no meio de uma família ou de um grupo de amigos, aos quais está cotidiana e afetivamente ligado, mas que no entanto, não com-partilham da mesma fé e frequentemente, não manifestam nenhum desejo de compartilhá-la… Eles vivem de um modo especial a dificuldade do testemunho da fé: em muitos dos lugares do mundo contemporâneo, a situação habitual de um leigo o confronta com a indiferença,o cepticismo e a incredulidade, de um modo bem diferente ao dos religiosos, e isto deve enriquecer a pregação do conjunto da Ordem. Assim mesmo, através das atividades da sua vida profissional, familiar ou militante, um leigo experimenta como as exigências cristãs de fraternidade e de verdade, segundo as quais ele busca contribuir para a transformação do mundo, são uma pregação essencial, própria do seu estado, que se conjuga com a pregação do conjunto da “família dos pregadores”.
Através de todas estas experiências, vive-se a experiência de Deus, de sua presença, de sua Palavra, de sua Providência… Falar da parte de Deus, é deixar que o sopro de Deus, inspire as nossas palavras humanas de modo que elas testemunhem a presença e a “vida conosco” d’Aquele maior que todos nós. Mas, é também deixar que se grave em nós, no mais profundo de nossas próprias experiências, um eco misterioso da experiência da condição humana, que o próprio Deus quis fazer em seu Filho. Compreende-se
facilmente que a complementariedade entre a pregação dos leigos e a dos frades ou das irmãs, comprometidos na família dominicana sob a forma de vida consagrada, é uma consequência da complementariedade da experiência da vida humana. Partindo deste ponto de vista, é importante sublinhar que uma das tarefas da família dominicana é se organizar de tal modo que estas múltiplas experiências (e não apenas as ações concretas de evangelização) entrem em diálogo e se ensinem reciprocamente a presença e a providência de Deus. Parece-me que muitas vezes damos por certo, que prestamos mútua atenção ao que constitui a singularidade da experiência de ser dominicano hoje nos diferentes estados de vida, que nós conhecemos o modo de vida dos outros membros da família… No fundo, talvez com exagerada frequência, consideramos que é possível construir nossa “família”, fazendo caso omisso daquilo que constitui o próprio fundamento da pregação e que é o lugar fundamental da obra da graça de cada um. Para servir à conversação de Deus com a humanidade, devemos tomar o tempo e procurar os meios para escutar os ecos das múltiplas conversações queEle tem neste mundo.
A partir destas observações, podemos dizer que os leigos dominicanos enriquecem dia após dia a maneira com que a Ordem deve aprender a “amar o mundo”, ao qual é enviada a pregar, não apenas contando com agudos e pertinentes análises do mundo, mas fazendo-se vulnerável às distintas experiências do mundo que têm os membros da família dominicana. Fazendo isto, quanto ao demais, a Ordem em sua diversidade aprenderá também a se deixar marcar pelas diferentes interpretações da Palavra que nascem do coração destas experiências.
Com a Bíblia em uma mão e o jornal em outra, como gostava de dizer a alguns de nossos mais idosos. A experiência compartilhada enriquece mais ainda esta atitude. A partir desta tomada de consciência, toda a Ordem pode-rá reforçar cada vez mais a sua convicção de que um dos primeiros deveres do anúncio do Evangelho, é permitir a cada um dos seus interlocutores, perceber o seu próprio lugar neste Reino anunciado, descobrir a própria responsabilidade que pode assumir ao aceitar, por sua vez, ser enviado. No seio da Ordem, os leigos dominicanos têm a tarefa de recordar aos outros membros, esta primeira evidência: os leigos na Igreja, antes de tudo, não são destinatários da pregação, da evangelização e da pastoral, mas que são pessoas chamadas a serem os atores das mesmas.

Na comunhão, renovar o zelo pela evangelização

A Igreja, bem recentemente, estabeleceu a noção de “família espiritual”, que corresponde ao que se denominou “novas comunidades”. De certo modo, senão fosse pelo temor de ser anacrônico, poderíamos nos atrever a dizer que a “Santa pregação” dos inícios teria respondido a esta definição e que a “família dominicana” é hoje a realização da mesma. Atualmente, há uma urgência na Igreja, esta mensagem já se repete até a saciedade, de re-novar o seu zelo pela evangelização, isto é, de se fortalecer a si mesma e estender-se pelo poder e pela graça da evangelização. E para isto, é urgente que a iniciativa da evangelização não seja percebida apenas como o fruto das instâncias clericais da igreja, mas, e sim, o fruto de uma iniciativa comum, pela qual a Igreja em seu conjunto se implica e compromete o essencial do que ela é, lançando-se ao encontro dos seus contemporâneos. Assim, para chegar a ser o que ela é essencialmente, a Igreja tem necessidade do compromisso de todos para dar o Evangelho ao mundo. Como não perceber esta urgência para a nossa própria Ordem? Como “servidora do carisma da pregação”, a Ordem dos pregadores tem o dever de promover o carisma dos leigos para a evangelização, e de manifestar que o que está em jogo é a própria constituição da Igreja, por meio da integração dos leigos dominicanos em uma só comunhão de evangelização, já não podem ser definidos sem uma sólida conversação entre todos, leigos, ministros e pessoas consagradas, prestando uma atenção especial à experiência ao desejo missionário dos leigos. Vários elementos me parecem determinantes na contribuição específica dos leigos dominicanos a esta re-novação do zelo pela evangelização do conjunto da família dominicana.
Antes de tudo, ainda com o risco de repetir uma banalidade, os leigos recordam a todos que uma intuição evangélica como a de Domingos não pode ser reduzida à sua tradução na vida consagrada. Sempre existe um risco, em uma família espiritual, de deixar que se estabeleçam distinções, das quais implicitamente, poder-se-iam deduzir falsas hierarquias: consagrados ou não consagrados;sacerdotes ou não; homens ou mulheres; jovens ou velhos. Entre nós, devemos ter a simplicidade, e sem dúvida, o valor, de fazer frente a esta tentação e remediá-la. Este é o preço para poder por, do melhor modo possível, o carisma da pregação a serviço de uma Igreja fraternidade. É também, escutando os leigos dominicanos falarem dos prazeres, mas também das dificuldades que eles vivem em seus compromissos eclesiais, descobrindo bastante, muitas vezes que se o apoio dos leigos é, em geral,vivamente desejado, suas iniciativas, sua formação teológica,seus saberes teóricos e práticos, sua experiência humana não recebe sempre a acolhida que seria desejável. Como se houvesse dois pesos e duas medidas no espaço dado à palavra de cada um na conversação eclesial.
Insistir no compromisso dos leigos dominicanos na pregação significa também, na tradição da Ordem, insistir na exigência do estudo. Com efeito, como dizia no começo, a pregação deve encontrar a sua própria fonte no equilíbrio entre as três formas de contemplação que são a oração, o estudo e a vida fraterna. Anunciara Palavra, escutar as aspirações do mundo contemporâneo à verdade, tratar de estabelecer as melhores condições possíveis
para um diálogo com as culturas e os novos conhecimentos, exige a ascese do estudo. A Ordem não deve nunca deixar de ser uma “estudante”. Para que o testemunho e as palavras de fé encontrem no estudo e no conhecimento da tradição da Igreja, o rigor e a objetividade que abram aos interlocutores, verdadeiros caminhos de liberdade sobre os quais pode aplicar a sua própria inteligência da fé na Igreja.
A diversidade de situações concretas, nas quais vivem os leigos, é também uma riqueza muito grande para o conjunto da família dominicana. Com efeito, ela permite não ceder à facilidade, com a qual poderíamos nos re-presentar as realidade humanas, pessoais, familiares e sociais de maneira unívoca, nem do ponto de vista “teórico” que poderia tornar-se normativo e redutor. É na experiência concreta onde se enfocam as questões de vida de casal, de educação dos filhos, de responsabilidade profissional, de precariedade do emprego, de nível de vida econômico, de compromisso político ou social. É também no concreto da experiência que se vivem os duelos de um cônjuge ou de um filho, os momentos difíceis, às vezes, de reorientação profissional, as etapas do passo para a aposentado-ria, as dificuldades da velhice. Porque todas estas experiências estão, em sua vida concreta, em diálogo com o seu compromisso na pregação do Evangelho, os leigos dominicanos trazem uma contribuição sem igual à compreensão da Palavra de Deus no seio da família dominicana.
A insistência que a Igreja põe hoje na necessidade de uma renovação da evangelização está acompanhada muitas vezes pela constatação de que a “secularização” representa um desafio maior para o anúncio do Reino. A-qui também, há que se sublinhar o caráter específico das experiências desta secularização que têm os leigos em seu ambiente profissional, familiar ou de amizades. Quantas vezes escutamos os irmãos e irmãs leigos expressarem a pena que sentem de ver a sua família se afastar numa certa indiferença da fé, da solidão que sentem quando lhes parece quase impossível expressar publicamente a sua fé nos ambientes em que vivem ou trabalham, a incompreensão à qual se veem confrontados quando tratam de manifestar que não há necessariamente contradição entre a razão moderna, predominantemente científica e técnica, e as convicções de fé e de valores! Quantas vezes eles expressam em contextos culturais mui diversos, a dificuldade de encontrar a atitude justa no contexto atual de pluralismo religioso! Aqui os leigos dominicanos podem ajudar o conjunto da família dominicana a realizar de maneira criativa uma pregação que mantenha juntos o testemunho compreensível e a palavra explícita.
Considerando esta complementariedade, o compromisso da família dominicana na missão comum de evangelização poderia estabelecer um certo número de objetivos prioritários. Corresponde evidentemente,em primeiro lugar, a cada “santa pregação” local, identificar estas prioridades, levando-se em conta a sua realidade concreta, a própria cultura do país e de sua história eclesial específica. Mas, parece-me que uma reflexão dos outros membros da família dominicana junto aos leigos é especialmente necessária hoje, ao considerar a renovação da evangelização nas famílias, no mundo da educação, a evangelização dirigida aos jovens. Devemos solicitar a sua experiência dos conhecimentos práticos contemporâneos para definir melhor os desafios do encontro de evangelização com as culturas científicas e técnicas, assim como com as novas redes sociais. Junto a eles, e provavelmente dando uma atenção prioritária à sua experiência, trata-se de familiarizarmo-nos com a secularização, quando ela perturba os costumes de reconhecimento da Igreja, mas também quando ela abre novos caminhos de liberdade para a evangelização.
Nesta época de chamada para renovar a evangelização, parece-me que a Ordem dos Pregadores está especialmente convidada a integrar na dinâmica de sua missão, uma atenção prioritária à promoção da vocação leiga de levar o Evangelho ao mundo. Seria uma bela maneira de servir hoje à Igreja. Para fazer isto, quisera sub-linhar em especial certos meios que nós poderíamos desenvolver. O espírito, no qual os diversos grupos de leigos dominicanos são chamados a viver, deve estar sempre impregnado de gozo, de liberdade e de simplicidade: nesta perspectiva nos orientam os documentos do Concílio, escritos para o laicato dominicano.
As fraternidades leigas dominicanas têm uma responsabilidade eminente no conjunto da constelação dos diferentes grupos de leigos, porque elas se comprometem a introduzir, em uma vida plenamente leiga, o equilíbrio entre todas as dimensões da tradição de São Domingos. Há que se velar para que as fraternidades ofereçam esta possibilidade de vida, seguindo a escola de S. Domingos, distinguindo-se deliberadamente de toda “contaminação por parte da vida religiosa”, evitando formalismos que conduziriam à esclerose. No entanto, também convém estar abertos ao surgimento de outras formas de laicato na família, justamente por causa da diversidade das experiências evocadas mais acima. O desafio da evangelização dos jovens nos chama certamente a promover, o mais possível, os grupos que poderão fazer parte do Movimento Juvenil Dominicano Internacional, não como grupos de “pastoral” com grupos de jovens, mas como grupos que se constituem e se formam para serem grupos de jovens missionários para os jovens ( tendo uma atenção especial para os jovens que não receberam a fé, e para aqueles que vivem muito distantes dos mundos onde se conservam em geral as tradições espirituais). Durante este ano, parece-me importante que os outros membros da família dominicana dediquem tempo para escutar, conhecer e compreender melhor a vocação leiga no conjunto da missão da Ordem, e possam assim, participar mais na promoção desta vocação.
Se desenvolvermos esta dinâmica do laicato dominicano, isto nos comprometerá a promover no seio da Igreja, uma reflexão sobre a atualidade da vocação leiga à evangelização que concerne a todo batizado,e também uma reflexão sobre a contribuição das “comunhões leigas” que seguem tradições espirituais especiais ao estabelecimento das comunidades eclesiais locais. Convido todas as teólogas e os teólogos da família dominicana a nos ajudarem nesta reflexão.
Vossos filhos e vossa filhas profetizarão… Consagrar um ano da novena de preparação do Jubileu da Ordem ao tema “O laicato dominicano e a pregação” pode nos ajudar a tomar uma maior consciência do desa- fio de sermos “enviados a pregar o Evangelho” como família dominicana. No fundo, é uma chamada a todos para enraizar cada vez mais profundamente, o nosso desejo de evangelização no mistério do nosso batismo, que nos chama à edificação da Igreja no mundo como sacramento de salvação. Convido todas as comunidades da Ordem e todas as comunidades e grupos da família dominicana, a dedicarem tempo durante este ano para aprofundar tudo isto. E para fazê-lo, convido-as a aproveitarem o tempo da quaresma para dedicarem cada semana, um tempo de “lectio divina” comunitária aos textos dos cinco domingos desse ano litúrgico, fundamentando novamente a sua comunhão ao percorrer o caminho pelo qual a Igreja convida os catecúmenos a nascerem de novo pelo prazer de evangelizar.

 

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