“Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

por Jean Willys (via Carta Capital)

A fome é uma desgraça social. Não me refiro àquela vontade de comer que nos assalta em intervalos entre refeições diárias garantidas. A fome que é uma desgraça social é aquela experimentada por quem não tem perspectiva de saciá-la em momento algum do dia; pelos que não têm garantido alimento algum hoje, amanhã nem depois de amanhã; e por quem não tem os recursos mínimos para assegurar, a si e aos seus, o sal da vida. A fome que é uma desgraça social é esta que tira a dignidade de qualquer ser humano. Quem nunca olhou nos olhos de um faminto – grandes e paradoxalmente sem luz, a suplicar ajuda sem palavras – não faz ideia do que estou falando.

Essa fome que é uma desgraça social já me fez sofrer. Por causa do alcoolismo, meu pai passou a ter dificuldades em achar trabalho, formal e informal; vivia desempregado. Minha mãe se virava como lavadeira e doméstica, mas o pouco que ganhava não garantia comida todos os dias em casa (e quando garantia, era quase sempre o velho café com farinha – meu irmão George Matos não consegue se esquecer do gosto dessa mistura nem eu). Por isso, passávamos muita fome. Dependíamos da bondade dos outros (tias, tios, esposas de tios e conhecidos) para comer. Sou grato demais a quem nos estendeu um prato de comida (embora minha mãe, temendo a humilhação, preferisse que não falássemos da fome que passávamos para os outros), mas a bondade não era freqüente nem solucionava definitivamente o problema.

Não foram poucas as vezes em que fomos à escola famintos, pois, tínhamos a certeza de que só a escola nos daria a chance de vencer a própria fome (e não estou me referindo à merenda escolar, que, naquela ocasião, era intermitente). Foi também o desejo de vencer a fome que nos levou – a mim e a meus irmãos, com exceção dos dois mais novos – ao trabalho tão cedo, sacrificando parte de nossa infância e adolescência.

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Até aqui este relato não se refere a uma exceção, mas a quase uma regra. Ainda há, no Brasil, milhões de pessoas castigadas pela fome apesar dos programas sociais e de transferência de renda da era Lula, que, infelizmente, ainda não alcançam a totalidade dos famintos, sejam os do campo ou das cidades grandes.

Os anos se passaram e meus irmãos e eu vencemos a fome (e a miséria que a gerava) graças à educação e ao trabalho. Porém, recém-chegado a Salvador, vindo do colégio interno da Fundação José Carvalho, e dividindo um apartamento de dois quartos no Cabula, periferia da cidade, com duas amigas e colegas de internato – uma deles é a hoje atriz e professora Adriana Drica Amorim e a outra é a hoje defensora pública Firmiane Venâncio – a fome quis me assombrar de novo. De nós três, o único com emprego fixo era eu. As meninas batalhavam por emprego enquanto estudavam. Suas famílias mandavam alguma ajuda, mas elas não abusavam desta porque sabiam que era limitada e fruto de muito esforço. Eu segurava a onda da casa, mas o que eu ganhava não garantia tudo, já que havia também o aluguel e o condomínio.

Então, houve uma semana em que não tínhamos nada – nada mesmo – para comer. Eu tinha vale-transportes, mas estes eram o que asseguraria minha ida ao trabalho. O ano era o de 1994 e, se não me falha a memória, estávamos já em clima de Copa do Mundo. Acordamos no domingo e olhamos uns para os outros sem perspectiva de como resolver aquela situação. Passaríamos o dia com fome (e talvez o restante da semana seguinte caso eu não conseguisse algum empréstimo no trabalho). Mas eis que, do nada (Terá sido mesmo do nada? Eu acredito nos mistérios da vida!), aparece, para nos visitar, um colega da Fundação chamado Jailton. Contamos sobre nossa situação e ele nos levou ao mercado mais próximo, onde compramos comida para o dia e para o resto da semana.

Preparamos uma macarronada com frango e sentamos à mesa, acompanhados de uma coca-cola litro. Ligamos o rádio para ouvirmos música enquanto comíamos, afinal estávamos tão felizes com aquele acontecido… Mal demos as primeiras garfadas e a Globo FM começou a tocar “Gente”, de Caetano Veloso. Ao ouvirmos o verso “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”, silenciamos e nos emocionamos. Era um sinal: não, não morreríamos de fome! E o que fizéssemos na vida seria, dentro dos limites da atividade, dedicado a impedir que gente morra de fome e a ajudar gente a brilhar.

Talvez tudo isso justifique o que fiz e faço hoje da minha vida, mas, com certeza, explica o fato de, anos depois, eu ter tatuado, em meu peito, essa frase de Maiakovski, citada por Caetano em sua canção: Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome!

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#CaminhadaOrante2014 – uma breve partilha pessoal

Olá pessoal.

Mais uma etapa da #CaminhadaOrante foi concluída no último domingo (22). Foram 20 peregrinos que caminharam aproximadamente 80 km de Inconfidentes (MG) até a cidade de Consolação (MG).

E com isso se constrói um dos momentos mais ricos, que é a partilha. Rico, pois as experiências foram ricas, e ler um pouco dessas histórias com certeza faz todos beberem de uma experiência de Deus.

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Queremos reforçar também o agradecimento pelo apoio das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que acolheram os peregrinos no Colégio Nossa Sra. do Carmo, em Borda da Mata (MG), aos Frades Dominicanos e a Paróquia Santo Antônio, de Curitiba (PR), pela parceria de sempre e a Sra. Vicentina, leiga dominicana de São Paulo que aposta na juventude, nossos sinceros agradecimentos.

Saboreie, agora, a partilha:

“A Caminhada Orante é uma das atividades proporcionadas pelo MJD-BR que mais aprecio! E por quê? Bem, de fato é uma atividade que une por si só um contato íntimo com Deus e com todas as Suas manifestações, seja por meio da natureza ou pelos irmãos, tanto os de caminhada quanto os que aparecem na estrada pra nos acolher, ensinar ou simplesmente acenar o braço e dizer ‘Deus te acompanhe!…’.

Este ano, a Caminhada Orante teve um toque especial. Na verdade, lembro de ter dito isto também ano passado…a cada ano, busco viver tão intensamente esta atividade que o sabor da última é sempre o mais marcante. Mas, de fato, o itinerário do caminho foi muito providencial…Inconfidentes-Consolação, ambos situados no sul de Minas Gerais.

Partimos de Inconfidentes – nome sugestivo de revolução, mudança, transformação. E era por esta experiência de mudança que eu estava (e continuo) precisando viver – rumo à nossa primeira parada em Borda da Mata. Fomos calorosamente acolhidos pelas irmãs dominicanas de Santa Catarina de Sena e pernoitamos no Colégio Nossa Senhora do Carmo no dia em que celebramos o Corpo de Cristo, que nos fortalece internamente e nos une enquanto irmãos. Foi o momento de ‘desamarrarmos nossas sandálias, descansarmos e comungarmos para renovarmos nossa esperança no Senhor’.

Saímos de Borda da Mata rumo à segunda parada. Dezesseis quilômetros de aclives e declives até Tocos de Moji. Pela manhã (e assim foi nos quatro dias de caminhada) fomos motivados pela oração do rosário e convidados a refletirmos sobre as pedras em nosso caminho que dificultam cativarmos uma relação de pleno amor e serviço a Deus. Algumas dificuldades encontramos pelo caminho, cansaço, dores…mas a cada dificuldade surgiam, pelo menos, cem outros presentes de Deus: a paisagem, os animais, os morangos, o céu azul, o bate papo com os amigos, as risadas, as brincadeiras, as tubaínas (quem reclama paga uma e tem gente que reclamou e ainda não pagou!), a criação de laços, a preocupação com o outro, a acolhida nas casas, a água potável, o parto de um bezerro, as massagens gentilmente fornecidas, a partilha do alimento, o sorriso dos conterrâneos, o momento da chegada, o contato com outros peregrinos…nossa! Deus se manifestou de tantas maneiras que, se for escrever todas aqui, não finalizo este escrito.

Em nosso terceiro dia, o mais difícil de todos devido à altitude, chegamos à aconchegante cidade de Estiva… foi bom chegar, mas caminhar até lá foi ainda melhor!

Pouco a pouco, Deus nos guiava até Consolação…não somente ao sítio geográfico mas, a cada dia, Deus consolava ainda mais meu coração inconfidente. Pedi a Ele, então, que não fosse concedida somente à mim esta graça, mas à todos os irmãos que passam por momentos de desolação.

E, com o auxílio de Deus, finalmente chegamos à Consolação, no quarto dia. Tendo a certeza de que chegaríamos, chegamos, pois de fato Ele estava conosco.

Este itinerário também se dá em nossa vida. Deus nos guia à consolação a medida que nos deixamos conduzir por Ele. A oração, confiança, vida comum e abertura de coração são os cajados que nos auxiliam a chegar até ela.”

Mariana Bongiorno, vice-coordenadora nacional e integrante do #MJDSãoPaulo

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“A Caminhada Orante de 2014 teve um gostinho especial para mim, sobretudo por ser minha primeira. Não conseguia rezar de jeito nenhum, e isso me angustiava… Eu pensava: ́ ́Poxa estou na Caminhada Orante e não consigo rezar. ́ ́. Tudo era motivo para perder meu foco, não via a hora dos únicos 15 minutos de silencio de uma caminhada de 5 horas acabar. No primeiro dia o caminho foi leve, era o momento perfeito para rezar, mas a euforia não deixou. No segundo dia eu tive um contato maior com Deus e me senti chamado a rezar com um companheiro, através de uma conversa, e deu muito certo e a minha ânsia ia passando. No terceiro eu tive um breve momento de silencio, e me senti chamado a contemplar, tudo que Deus fez por nós, e reconhecer o quão pequeno e insignificante é o homem no meio daquela natureza toda e uma frase que me marcou desse dia foi a que diz que Deus não precisa de nós, nós precisamos de Deus, e esse mesmo Deus criou tudo isso como uma perfeita engrenagem para nós seres imperfeitos que cometemos heresias e pecamos. No último dia me senti chamado a ajudar as pessoas como uma missão, precisamos amar uns aos outros de forma plena pois ele também é criatura, assim como eu defendo os animais tenho a consciência de que devemos defender as minorias e os marginalizados pois eles também são criaturas de Deus.

No fim percebi que minhas orações foram intensas porem não extensas, e realmente me senti amado por Deus e precisava plenamente de uma relação mais intima com Deus, como pai e filho, como um amigo que caminha com outro. E os sentimentos que me ficaram foi de cumplicidade, amizade e amor.”

Erick Vinícius Borges, integrante do #MJDSãoPaulo

“Viajar é sempre legal, com gente querida que não vemos faz tempo é melhor ainda, principalmente quando temos tempo para partilhar a vida e colocar a conversa em dia, rezar junto, caminhar junto, subir morros junto. Enfim, a caminhada orante é um evento que junta muitos elementos que nos fazem pessoas melhores e nos une como grupo. Essa foi a segunda vez que participo e foi ótimo, é um evento que tem a cara do MJD!”

Victor Alarcon, promotor nacional de formação e integrante do #MJDSãoPaulo

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“2014 foi o meu quarto ano como peregrina e a experiência nunca é a mesma. E não me refiro somente por causa da paisagem ou das pessoas, mas ao sentimento que senti e vivenciei. Porque nós, seres humanos, estamos em constante evolução e isso se reflete durante o caminho da fé. Há momentos de partilha, de superação, de oração. Mas o que ainda me surpreende e me encanta é como a diferença de idade, de objetivos de vida e de experiência anteriores se tornam insignificantes frente ao despojamento e fé que motivam os peregrinos.”
Paula Daniela Alves, promotora da de formação do grupo MJD São Vicente e integrante do #MJDSãoPaulo
“Rezar se enxergando perante Deus. Uma bela caminha com todo o contato com o mundo rural e com Deus. Me disseram que não era um dos trechos mais cansativos, porém, em minha opinião, bem belo. A vida em comum, o despojamento e a oração. Marcos de uma caminhada que me fez refletir sobre minha vida. Subidas árduas e ingrimes nos acompanharam, mas são elas que marcam, são elas que lembramos. Foi uma bela primeira experiência de caminhada, espero poder ter outras melhores ainda.”
Gabriel Lanzillotta,  integrante do #MJDSãoPaulo
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“Essa caminhada orante 2014 foi, a maior experiência que pude desfrutar na minha vida, e posso garantir, pois tive um contato muito forte e próximo com Deus, diante das dificuldades, durante as orações e no contato com os demais peregrinos. Durante os quatro dias da caminhada, foi algo muito maravilhoso estar próximo dos demais peregrinos e vivenciar esses dias, conhecer mais a minha fé, fortalecê-la a cada passo e analisar os meus limites e minha força de vontade diante de cada dificuldade que surgiu, dor, cansaço, sede, fome ou necessidade física que necessitei.

Em muitos momentos me sentir mais próximo a Deus, a cada oração que fiz, me senti mais próximo Dele, da minha família, dos meus amigos, colegas de trabalho e de pessoas que coloquei em minhas orações devido a importância que elas tem em minha vida e mesmo distante delas, me senti mais próximo como se estivessem caminhando comigo. Mesmo com qualquer problema que ocorria, pude me ver mais familiarizado com Ele e, fosse na oração, ou, a cada passada que dava em frente pude desfrutar da sua companhia.

O local em que caminhamos foi de grande agrado, pois pudemos contemplar a belíssima paisagem que o trajeto nos disponibilizou. O contato com a natureza foi algo que me marcou muito, sempre gostei muito de estar com a natureza e até desejo essa contato maior e mais ânimo para que reviva mais vezes essas experiência e algumas similares.

Houve também uma maior proximidade com os peregrinos do MJD ou não, durante o trajeto ou na hora em que chegávamos nas cidades, reparava nas expressões de todos com uma grande felicidade, por ter alcançado um desejo que de todos era comum, mas que cada um sentia de um modo diferente. Aprendi um pouco com cada pessoa que fui conhecendo ao longo do caminho e pude desfrutar de várias experiências e perceber que cada um tem um ponto de vista para apresentar do seu modo de ver.

Essa caminhada deixou marcar profundas em meu coração e que levarei por toda a minha vida, a cada passo, cada oração, cada Ave Maria, Pai Nosso que eu dei no trecho.”

Rafael Devoyno Arraes, promotor de missão e caridade do grupo MJD Curitiba e  integrante do #MJDCurtitiba

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“A caminhada foi uma experiência espetacular. Não só pelas paisagens que pude aproveitar muito melhor que ano passado, mas também pela convivência fraterna com todos. Cuidar dos outros e ser cuidada por eles me faz mais humana e torna meu olhar mais sensível à dor do outro. Também ganhamos muitos morangos pelo caminho e como estavam doces!! Diante de tantas subidas e descidas, momentos de oração, partilha, reflexão, dificuldade e boas risadas, tudo valeu a pena, teve seu valor e levo comigo como aprendizado para continuar firme e forte caminhando…”

Lidiane Harue Fugimoto, secretaria nacional e integrante do #MJDCurtitiba

“A caminhada orante deste ano foi, além de um teste para nossa fé e nosso corpo, uma experiência única em união com Deus e com novos e antigos amigos, e que nos ajudou a conhecermos melhor a nós mesmos.”

Giancarlo Mateus, integrante do #MJDCurtitiba

 

“Quando decidi participar da caminhada não tinha – Quando decidi participar da caminhada não tinha muita certeza se meu corpo aguentaria , mas mesmo assim não quis me negar de viver tal experiencia, e não me arrependo de forma alguma!! Andar, contemplar paisagens tao belas, conhecer as pessoas com as quais eu estava caminhando, conhecer novos lugares, nada supera essa experiencia . Eu aprendi a valorizar as coisas,e que nem tudo o que eu acredito que preciso no meu dia-a-dia é . necessário. Comprar morangos na estrada e eles serem os melhores morangos da minha vida , pela primeira vez realmente degustar cada mordida de um alimento, isso é impagável . Saber que o peso em minhas costas é minha escolha,e tentar ao máximo não pensar na dor, ou em qualquer incômodo decorrente a andar . Durante esses quatro dias encontrei o que me afasta de Deus,mas não consegui encontrado… Posso dizer que foi uma experiência inesquecível!!”

Isabella Bachelli, integrante do #MJDSãoPaulo

Recado de nosso assessor para a #CaminhadaOrante2014

por Frei Mariano Foralosso, assessor nacional do MJD-Br

 

Caros jovens caminheiros

Quero enviar uma pequena mensagem a vocês, que estão se preparando para a ‘Caminhada Orante’.  Infelizmente a minha idade e os compromissos deste período não me permitem de caminhar e rezar junto com vocês pelas estradas e trilhas de Minas Gerais.

A perspectiva desta bela proposta do MJD é de caminhar juntos,  rezar,  contemplar a natureza, encontrar pessoas e ambientes diferentes, se tornando próximos deles, recebendo deles acolhida e alimentação, aprofundando o conhecimento e a amizade dos companheiros e companheiras de caminhada, dialogando, escutando, partilhando a vida.  Tudo isso é realmente muito bonito!  Pensando bem,  esta vossa caminhada sintetiza e simboliza um pouco o que é a caminhada da vida: um andar contínuo rumo a uma meta, um andar junto com as pessoas que se fazem nossas companheiras, um encontrar o diferente, o novo, o inesperado. E também, para vocês jovens do MJD, um caminhar no seguimento Jesus, que cada um de você aceitou como o “caminho, a verdade e a vida” para a sua vida!

Vocês farão também uma experiência que foi muito marcante na vida de São Domingos! Ele foi realmente um grande caminheiro! Desde a península Ibérica até o norte da Europa, até a Itália: Roma, Bolonha, Milão, Veneza, etc..  Ele viveu numa dimensão de itinerância contínua, não como turista, mas como irmão preocupado em se fazer próximo dos irmãos necessitados.  Lembro sempre com emoção que a última viagem de São Domingos foi na região onde eu nasci, a ‘Marca de Treviso’, perto de Veneza.  Ele foi lá com vários companheiros, a pedido de Papa Honório, para realizar uma grande missão evangelizadora,  procurando dialogar com os hereges e confirmando na fé  os cristãos desnorteados.   Frei Domingos cansou bastante nesta sua última missão. Talvez meus ancestrais fossem muito ‘hereges’ e pecadores, não sei! Ele voltou muito doente e debilitado para Bolonha e aí morreu, na tarde do dia 6 de agosto 1221.

Quero deixar a vocês, caminheiros orantes do MJD, uma pequena memória de como  frei Domingos andava pelos caminhos: a pé, alternando tempos de encontro e diálogo com os irmãos e tempos de silêncio e contemplação de Deus, observando a natureza e meditando a Palavra, sendo acolhido nas casas e mosteiros, e pedindo esmola.  Deixo falar alguém que o conheceu e foi seu  companheiro de caminhadas. Nos textos das ‘fontes’ encontramos de fato muitos testemunhos sobre a constante itinerância de frei Domingos e sobre o estilo do seu caminhar:

Quando andava pelos caminhos, aos que o acompanhavam queria expor-lhes a Palavra de Deus. Enquanto caminhava, sempre queria dissertar, ou falar de Deus, ou ensinar ou ler ou rezar…. Guardava sempre o silêncio de tarde, depois das completas, e queria que os seus companheiros também o guardassem, como se estivessem no convento… Hospede nas pousadas e nas casas, dormia sobre palha, vestido e calçado, como andava durante o dia. Às vezes só tirava os sapatos…  Quando saia de alguma cidade, aldeia ou castelo, tirava os sapatos e caminhava com os pés descalços, levando os sapatos sobre os ombros… Quando chegava perto de um povoado, ele os recolocava. Depois os tirava de novo… Se algumas vezes tropeçava nas pedras, sofria com rosto alegre, e não se perturbava, dizendo: isto serve de penitência… Nas viagens, foi visto muitas vezes pedindo esmola de porta em porta e receber o pão como um pobre.  Em Dugliolo, perto de Bolonha, quando um homem lhe ofereceu um pão inteiro, ele o recebeu de joelhos, com grande devoção e humildade…. Frei Bertrando contou que, viajando uma certa vez com frei Domingos, surgiu uma tempestade, e já um verdadeiro dilúvio começava a desabar. Então frei Domingos fez o sinal da cruz e conteve diante de si todo aquele aguaceiro, de tal modo que viam as grossas gotas despencando na terra, uns três côvados na frente, e nem uma gota lhes tocou nem mesmo a orla das vestes.”

Estas histórias de frei Domingos ‘caminheiro’ são muito bonitas! Mas a vocês, jovens caminheiros do MJD  eu recomendo de andar com sapatos bons para caminhar, e levar consigo o necessário para se proteger da chuva e do frio, viu!!   Acompanharei vossa caminhada com a saudade dos belos tempos, quando eu também podia fazer isso. E acompanharei com minha oração, para que cada um de vocês possa aproveitar ao máximo toda a riqueza desta bela experiência.  São Domingos também acompanhe vocês com a sua proteção e o seu exemplo.   Um abraço a cada uma e cada um de vocês, com sentimento de grande fraternura.

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por Frei Rui, promotor internacional da Ordem dos Pregadores para o Laicado

Queridos Amigos,

Uma palavra para vos dizer que estou próximo de vós nessa peregrinação a Nossa Senhora de Aparecida. Uma peregrinação é um momento espiritual muito forte, coloca-nos na senda de grandes peregrinos da História da Salvação: Abraão, Moisés, Elias, Maria e Jesus.

Ao pensar na vossa peregrinação que tem como destino o Santuário da Aparecida lembrei-me das caminhadas que Maria fez e que, talvez, possam motivar a vossa caminhada. Deixem-me recordar algumas.

A primeira caminhada que o Evangelho nos relata foi aquela que Maria fez,  logo após a Anunciação, a casa de Isabel. Diz que foi apressadamente. Numa marcha há sempre momentos e ritmos diferentes. O que fez com que Maria andasse apressadamente não foi  a curiosidade ou dúvida mas a força da caridade que a levava a procurar ajudar alguém que necessitava de apoio, por isso o seu passo foi ligeiro. Quando alguém precisa, o nosso passo não pode ser lento, há urgência, temos que ir depressa, às vezes, porém ralentamos o passo e não damos resposta pronta ao irmão que nos necessita. Nessa caminhada podeis pensar como fazeis caminho e se caminhais depressa ao encontro de quem vos necessita.

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Uma outra caminhada de Maria que me impressiona muito foi aquela que Maria fez com o Menino Jesus e São José a caminho do Egito. Estava em risco a vida do Menino e havia que fugir. Nos séculos passados houve pintores que pintaram quadros lindíssimos sobre esta viagem adoçando os seus contornos. Mas deve ter sido uma viagem difícil, quando a recordo vem-me à ideia aquelas famílias mexicanas que no meio de tantos perigos tentam entrar nos EUA na esperança de uma vida melhor, e penso nos perseguidos por tantos motivos ideológicos, religiosos, raciais… Nestes dias penso nos cristãos de Iraque em pleno sobressalto. Na vossa caminhada pensai naqueles que são obrigados a fazer caminho para fugir a tantos perigos. Fugindo, também, no meio de outros tantos. Maria, José e o Menino identificam-se com estas caminhadas tantas vezes marcadas pelo medo e pelo desespero.

Gosto de pensar numa outra caminhada que Maria com José e Jesus fazem a Jerusalém. Penso como essa seria marcada pela oração. Certamente teriam rezado, com os outros peregrinos, os salmos graduais. Certamente teriam sentido a alegria de chegar ao Templo de Jerusalém e aí cantar o louvor de Deus. Mas esta caminhada foi também um momento de discernimento sobre a missão daquele que ali se apresenta como aquele que se deve ocupar das coisas de seu Pai. A vossa caminhada também poderia ter esta dimensão de encontro convosco mesmos, numa peregrinação interior que deve acompanhar a exterior, essa caminhada que é discernimento interior de vós mesmos, do sentido da vossa vida e opções, do lugar de Deus no vosso coração e, porque não, do que Deus quer de vós.

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Ao encontrarmos Maria junto à Cruz do Senhor, podemos pensar nesta outra caminhada de Nossa Senhora. Tem momentos dramáticos: a Mãe que vê o Filho morrer na cruz, e o recebe quando o descem do lenho. A tradição cristã coloca-nos ainda, na Via-Sacra. Diante do quadro de Maria que encontra o seu Filho no caminho do Calvário, desfigurado, rejeitado, escarnecido pela multidão, como anunciara Isaias nos Cânticos do Servo. Hoje somos convidados a ir ao encontro de Jesus desfigurado no sofrimento humano. Recordo tantos voluntários que vão encontro de doentes terminais e os apoiam a eles e às sua famílias, recordo visitadores de prisões que ajudam homens e mulheres a reencontrar a dignidade perdida, recordo gente que em locais onde o estrume e as pessoas parecem confundir-se ali oferecem algo de humanidade. Tantas peregrinações ao encontro de Jesus desfigurado no sofrimento. Que a vossa caminhada avive em cada um o compromisso com os mais pobres, com os que sofrem, com aqueles a quem roubaram a dignidade.

Renovo uma saudação amiga a todos e a certeza que em Roma alguém vos encontra a caminhar aos desfiar as contas do seu rosário.

Encontro de Paz

da redação do Blog (textos da Rádio do Vaticano)

Realizou-se na tarde deste domingo, 08 de junho, nos Jardins Vaticanos, o encontro de oração pela paz entre o Papa Francisco e os presidentes de Israel e Palestina, respectivamente Shimon Peres e Mahmoud Abbas.

Segue, na íntegra, o texto proferido pelo Papa Francisco no encontro de oração pela paz realizado na tarde deste domingo, 8 de junho, nos Jardins Vaticanos, com os presidentes de Israel e Palestina.

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Senhores Presidentes,

Com grande alegria vos saúdo e desejo oferecer, a vós e às ilustres Delegações que vos acompanham, a mesma recepção calorosa que me reservastes na minha peregrinação há pouco concluída à Terra Santa.

Agradeço-vos do fundo do coração por terdes aceite o meu convite para vir aqui a fim de, juntos, implorarmos de Deus o dom da paz. Espero que este encontro seja o início de um caminho novo à procura do que une para superar aquilo que divide.

E agradeço a Vossa Santidade, venerado Irmão Bartolomeu, por estar aqui comigo a acolher estes hóspedes ilustres. A sua participação é um grande dom, um apoio precioso, e é testemunho do caminho que estamos a fazer, como cristãos, rumo à plena unidade.

A vossa presença, Senhores Presidentes, é um grande sinal de fraternidade, que realizais como filhos de Abraão, e expressão concreta de confiança em Deus, Senhor da história, que hoje nos contempla como irmãos um do outro e deseja conduzir-nos pelos seus caminhos.

Este nosso encontro de imploração da paz para a Terra Santa, o Médio Oriente e o mundo inteiro é acompanhado pela oração de muitíssimas pessoas, pertencentes a diferentes culturas, pátrias, línguas e religiões: pessoas que rezaram por este encontro e agora estão unidas connosco na mesma imploração. É um encontro que responde ao ardente desejo de quantos anelam pela paz e sonham um mundo onde os homens e as mulheres possam viver como irmãos e não como adversários ou como inimigos.

Senhores Presidentes, o mundo é uma herança que recebemos dos nossos antepassados, mas é também um empréstimo dos nossos filhos: filhos que estão cansados e desfalecidos pelos conflitos e desejosos de alcançar a aurora da paz; filhos que nos pedem para derrubar os muros da inimizade e percorrer a estrada do diálogo e da paz a fim de que triunfem o amor e a amizade.
Muitos, demasiados destes filhos caíram vítimas inocentes da guerra e da violência, plantas arrancadas em pleno vigor. É nosso dever fazer com que o seu sacrifício não seja em vão. A sua memória infunda em nós a coragem da paz, a força de perseverar no diálogo a todo o custo, a paciência de tecer dia após dia a trama cada vez mais robusta de uma convivência respeitosa e pacífica, para a glória de Deus e o bem de todos.

Para fazer a paz é preciso coragem, muita mais do que para fazer a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não à briga; sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto, é preciso coragem, grande força de ânimo.

A história ensina-nos que as nossas meras forças não bastam. Já mais de uma vez estivemos perto da paz, mas o maligno, com diversos meios, conseguiu impedi-la. Por isso estamos aqui, porque sabemos e acreditamos que necessitamos da ajuda de Deus. Não renunciamos às nossas responsabilidades, mas invocamos a Deus como acto de suprema responsabilidade perante as nossas consciências e diante dos nossos povos. Ouvimos uma chamada e devemos responder: a chamada a romper a espiral do ódio e da violência, a rompê-la com uma única palavra: «irmão». Mas, para dizer esta palavra, devemos todos levantar os olhos ao Céu e reconhecer-nos filhos de um único Pai.
A Ele, no Espírito de Jesus Cristo, me dirijo, pedindo a intercessão da Virgem Maria, filha da Terra Santa e Mãe nossa:

Senhor Deus de Paz, escutai a nossa súplica!
Tentamos tantas vezes e durante tantos anos resolver os nossos conflitos com as nossas forças e também com as nossas armas; tantos momentos de hostilidade e escuridão; tanto sangue derramado; tantas vidas despedaçadas; tantas esperanças sepultadas… Mas os nossos esforços foram em vão. Agora, Senhor, ajudai-nos Vós! Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz, guiai-nos Vós para a paz. Abri os nossos olhos e os nossos corações e dai-nos a coragem de dizer: «nunca mais a guerra»; «com a guerra, tudo fica destruído»! Infundi em nós a coragem de realizar gestos concretos para construir a paz. Senhor, Deus de Abraão e dos Profetas, Deus Amor que nos criastes e chamais a viver como irmãos, dai-nos a força para sermos cada dia artesãos da paz; dai-nos a capacidade de olhar com benevolência todos os irmãos que encontramos no nosso caminho. Tornai-nos disponíveis para ouvir o grito dos nossos cidadãos que nos pedem para transformar as nossas armas em instrumentos de paz, os nossos medos em confiança e as nossas tensões em perdão. Mantende acesa em nós a chama da esperança para efectuar, com paciente perseverança, opções de diálogo e reconciliação, para que vença finalmente a paz. E que do coração de todo o homem sejam banidas estas palavras: divisão, ódio, guerra! Senhor, desarmai a língua e as mãos, renovai os corações e as mentes, para que a palavra que nos faz encontrar seja sempre «irmão», e o estilo da nossa vida se torne: shalom, paz, salam! Amém.

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Eis as palavras do Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, no encontro de oração pela paz, realizado neste domingo, no Vaticano.

Em nome de Deus, supremamente Clemente, supremamente misericordioso,
Sua Santidade Papa Francisco
Sua Excelência Presidente Shimon Peres
Beatitudes, Senhores Xeques e Rabinos
Senhoras e Senhores,

É realmente uma grande honra para nós encontrar-nos novamente com Sua Santidade o Papa Francisco, para cumprir seu convite gentil de desfrutar de sua presença espiritual e nobre, e ouvir o seu pensamento e sabedoria cristalina, que emanam de um coração saudável, de uma consciência vibrante, como também de um elevado sentido ético e religioso. Agradeço a Sua Santidade do profundo do meu coração por ter promovido este importante encontro aqui no Vaticano. Ao mesmo tempo, apreciamos muito a sua visita à Terra Santa Palestina, sobretudo em nossa cidade santa Jerusalém e em Belém, cidade do amor e da paz, local do nascimento de Jesus Cristo. A visita é uma expressão sincera de sua fé na paz e uma tentativa crível para alcançar a paz entre palestinos e israelenses.

Ó Deus, nós te louvamos sempre por ter feito de Jerusalém a nossa porta para o céu. Como diz o Alcorão Sagrado, “Glória a Ele que fez com que Seu servo viajasse de noite do lugar sagrado da adoração ao mais alto lugar de adoração, cujas redondezas nós abençoamos”. Tu tornaste a peregrinação e a oração neste lugar os melhores atos que os fiéis podem cumprir em sua honra, e expressaste a tua promessa fiel com as palavras: “Entre no Masjid como fizeram pela primeira vez”. O Deus Onipotente disse a verdade.

Ó, Deus do Céu e da Terra, acolhes a minha oração para a realização da verdade, da paz e da justiça em minha pátria, a Palestina, na região, e no mundo inteiro.

Suplico-te, ó Senhor, em nome do meu povo, o povo da Palestina, muçulmanos e cristãos e samaritanos, que desejam ardentemente uma paz justa, uma vida digna e a liberdade; Peço-te, Ó Senhor, para tornar o futuro de nosso povo próspero e promissor, com liberdade num Estado soberano e independente. Concede, Ó Senhor, à nossa região e ao seu povo segurança, salvação e estabilidade. Salva a nossa cidade abençoada Jerusalém; primeira Kiblah, segunda Mesquita Santa, terceira das duas Mesquitas Santas, e cidade das bênçãos e da paz com tudo o que a circunda.

Reconciliação e paz, Ó Senhor, são a nossa meta. Deus, em seu Livro Sagrado disse aos fiéis: “Fazei a paz entre vós!” “Nós estamos aqui, Senhor, orientados em direção à paz. Torna firmes os nossos passos e coroa com o sucesso os nossos esforços e nossas iniciativas. Tu que és o promotor da virtude e aquele que previne o vício, o mal e a agressão. Tu falas e tu és o mais verdadeiro, e se eles se inclinam pra a paz, inclinas também tu em direção a ela, e tenhas confiança em Alá. Ele é aquele que escuta, conhece”. Como diz o Profeta Muhammad, “Difundi a paz entre vós”.

Hoje, nós repetimos aquilo que Jesus Cristo disse dirigindo-se a Jerusalém: “Se tu tivesses conhecido hoje o caminho da paz! Recordamos também as palavras de São João Paulo II, quando disse: “Se a paz se realiza em Jerusalém, a paz será testemunhada no mundo inteiro”. E ao mesmo tempo, em nossa oração de hoje, proclamamos várias vezes para aqueles que lutam pela paz: “Bem-aventurados os que promovem a paz!”e “Pede paz para Jerusalém” como se diz nas Sagradas Escrituras.

Por isso, pedimos-te, Senhor, a paz na Terra Santa, Palestina, e Jerusalém junto com o seu povo. Nós te pedimos para tornar a Palestina e Jerusalém, em particular, uma terra segura para todos os fiéis, e um lugar de oração e culto para os seguidores das três religiões monoteístas, Hebraísmo, Cristianismo e Islã, e para todos aqueles que desejam visitá-la como estabelecido no Alcorão Sagrado.

Ó Senhor, tu és a paz e a paz vem de ti. Que o Deus da glória e majestade doe a todos nós segurança e salvação, e alivia o sofrimento do meu povo na pátria e na diáspora.

Ó Senhor, concede uma paz compreensiva e justa ao nosso país e à região para que o nosso povo e os povos do Oriente Médio e o mundo inteiro possam gozar do fruto da paz, da estabilidade e da coexistência.

Desejamos a paz para nós e nossos vizinhos. Procuramos a prosperidade e pensamentos de paz para nós como também para os outros. Ó Senhor, responde às nossas orações e dá sucesso às nossas iniciativas porque tu és o justo, o misericordioso, Senhor dos mundos. Amém!

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Eis as palavras do Presidente de Israel, Shimon Peres, no encontro de oração pela paz, realizado neste domingo, no Vaticano.

Sua Santidade Papa Francisco
Sua Excelência Presidente Mahmoud Abbas 

Vim da Cidade Santa de Jerusalém para agradecer-lhes por este vosso convite excepcional. A Cidade Santa de Jerusalém é o coração pulsante do povo judaico. Em hebraico, a nossa língua antiga, a palavra Jerusalém e a palavra “paz” têm a mesma raiz. E, de fato, paz é a visão própria de Jerusalém. Como se lê no Livro dos Salmos (122, 6-9): “Pedi a paz para Jerusalém. Que tuas tendas repousem. Haja paz em teus murosE repouso em teus palácios.Por meus irmãos e meus amigosEu desejo: “A paz esteja contigo”.Pela casa do Senhor nosso Deus, eu peço: “Felicidade para ti!””. 

Durante a Sua histórica visita à Terra Santa, Sua Santidade nos tocou com o calor do Seu coração, a sinceridade de Suas intenções, a Sua modéstia, a Sua gentileza. Sua Santidade tocou os corações das pessoas– independentemente de sua fé e nacionalidade. Sua Santidade se apresentou como um construtor de pontes de fraternidade e de paz. Nós todos precisamos da inspiração que acompanha o seu caráter e o seu caminho.Obrigado. Dois povos – os israelenses e os palestinos – ainda desejam ardentemente a paz. As lágrimas das mães sobre seus filhos ainda estão marcadas em nossos corações. Nós devemos pôr fim aos gritos, à violência, ao conflito. Nós todos necessitamos de paz. Paz entre iguais. 

O Seu convite a unir-se à Sua Santidade nesta importante cerimônia para invocar a paz, aqui nos Jardins Vaticanos, na presença de autoridades Judaicas, Cristãs, Muçulmanos e Drusas, reflete maravilhosamente a Sua visão da aspiração que todos compartilhamos: Paz. Nesta ocasião comovente, repletos de esperança e fé, elevamos com o Senhor, Santidade, uma invocação pela paz entre as religiões, as nações, as comunidades, entre homens e mulheres. Que a verdadeira paz se torne em breve e rapidamente, nossa herança. O nosso Livro dos Livros nos impõe o caminho da paz, nos pede que trabalhemos por sua realização. Diz o Livro dos Provérbios: “Suas vias são vias de graça, e todas as suas sendas são paz”. Assim devem ser as nossas vias. Vias de graça e de paz. 
Não é por acaso que Rabi Akiva colheu a essência da nossa Lei com uma só frase: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Nós todos somos iguais diante do Senhor. Nós somos todos parte da família humana. Por isso, sem paz nós não somos completos e devemos ainda realizar a missão da humanidade. A paz não vem facilmente. Nós devemos trabalhar com todas as nossas forças para alcançá-la. Para alcançá-la rapidamente. Mesmo que isso requeira sacrifícios ou comprometimentos. 

O Livro dos Salmos nos diz: “Se amas a vida e desejas ver longos dias, contenhas a tua língua do mal e teus lábios da mentira. Afasta-te do mal e faz o bem, busca a paz e persegue-a”. Isso significa que devemos perseguir a paz. Todos os anos. Todos os dias. Nós nos saudamos com esta bênção: Shalom, Salam. Nós devemos ser dignos do significado profundo desta bênção. Mesmo quando a paz parecer distante, nós devemos persegui-la para torná-la mais próxima. E se nós perseguimos a paz com perseverança, com fé, nós a alcançaremos. E esta durará graças a nós, a todos nós, de todas as religiões, de todas as nações, como foi escrito: “Esses transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Um povo não levantará mais a espada contra outro povo e não se exercitarão mais na arte da guerra”. A alma se eleva à leitura desses versos de visão eterna. E nós podemos – juntos e agora, israelenses e palestinos – transformar a nossa nobre visão numa realidade de bem-estar e prosperidade. É em nosso poder levar a paz aos nossos filhos. Este é o nosso dever, a santa missão dos pais. 

Permitam-me concluir com uma oração: Aquele que faz a paz nos céus, faça paz sobre nós e sobre todo Israel sobre o mundo inteiro, e dizemos: Amém.

#DomTomásVive

da redação do Blog

No último dia 3, a Família Dominicana em São Paulo se reuniu para celebrar a memória de 1 mês da Páscoa de nosso grande pastor, Dom Tomás Balduíno.

Dom Tomás é reconhecido por seu trabalho junto das comunidades e por sua luta com os companheiros que vivem do campo e da terra, como os trabalhadores rurais e os indígenas. Não é a toa que participou efetivamente da criação e da manutenção do Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra.

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Na celebração, pequena, simples, comunitária, ao bom estilo de Dom Tomás, a maior parte dos ramos da Família Dominicana estavam representados. A homilia foi uma grande partilha sobre a experiência de diversas pessoas do convívio e projetos com Dom Tomás. O MJD Brasil também abriu a todos a grande admiração que alimenta sobre o exemplo profético de Dom Tomás e que seu próximo Espaço Missionário será batizado de “Espaço Missionário Dom Tomas Balduíno”.

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Reproduzimos aqui também dois textos, um de frei Betto e outra da Pastora Nancy Cardoso Pereira, da Igreja Metodista, que não puderam estar presentes mas que não podiam deixar de dar seus testemunhos. Com este textos fica muito claro porque devemos alimentar a chama da memória de Dom Tomás e de fazer trabalhos junto dos pobres, das minorias, dos marginalizados.

*Para ver as fotos de todos os momentos da celebração, acesse o álbum em nossa página no facebook pelo link: http://on.fb.me/1ke7RAK

Dom Tomás, bispo dos excluídos (por frei Betto)

Em fevereiro de 1973, na Penitenciária de Presidente Venceslau (SP), misturados a presos comuns, cinco presos políticos – frei Fernando de Brito, Maurice Politi. Ivo Lesbaupin, Wanderley Caixe e eu – fomos castigados, com quinze dias de isolamento em celas individuais, por demonstrar solidariedade ao sexto preso político, Manoel Porfírio, que sofrera punição injusta.

No domingo, 11 de fevereiro, ao encerrar o período do nosso isolamento, recebemos inesperadamente a visita dos bispos Tomás Balduíno, José Maria Pires, Waldyr Calheiros e José Gonçalves. Tinham aproveitado o recesso da assembleia dos bispos do Brasil, em itaici [SP], para voar até Presidente Venceslau no teco-teco pilotado por Dom Tomás Balduíno.

Relatamos as torturas a que eram submetidos os presos comuns e as sanções injustas impostas a nós, presos políticos. Na tarde do mesmo dia, na reunião de Itaici, os bispos repetiram nossas denúncias em coletiva de imprensa.

O diretor da penitenciária ficou irritado e intrigado. Isolados como estávamos, com que recursos haviam convocado a comitiva episcopal? Teríamos um radiotransmissor dentro da cela? Talvez nunca tenha se convencido de se tratar de mera coincidência.

Nosso confrade na Ordem Dominicana, dom Tomás Balduíno, falecido no último dia 2 de maio, em Goiânia, em decorrência de embolia pulmonar, visitava periodicamente os frades encarcerados e não temia denunciar a ditadura e defender os direitos humanos.

Nascido em Posse (GO), no último dia de 1922, seu nome de batismo era Paulo Balduíno de Sousa Décio. Ao ingressar na vida religiosa adotou, como era costume na época, o prenome de Santo Tomás de Aquino.

Foi o último filho homem de uma família de onze filhos, três homens e oito mulheres. Seu pai, promotor público, encerrou a carreira como juiz.

Formado em filosofia, Dom Tomás fez o mestrado de teologia em Saint Maximin, na França. Em 1957, nomeado superior da missão dominicana na prelazia de Conceição do Araguaia (PA), viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época, a pastoral da prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para aprimorar seu trabalho junto aos índios, fez mestrado em Antropologia e Linguística, na Universidade de Brasília (UnB), concluído em 1965. Aprendeu a língua dos índios xicrin, do grupo bacajá, kayapó.

Para melhor atender a região da prelazia, que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do Baixo Araguaia mato-grossense, frei Tomás aprendeu a pilotar avião. Amigos da Itália o presentearam com um teco-teco, com o qual

prestou inestimável serviço, sobretudo na articulação de povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela ditadura militar.

Em 1965, foi nomeado pelo papa prelado de Conceição do Araguaia. Lá enfrentou os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com incentivos fiscais da extinta Sudam. Elas invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas (posseiros], e traziam trabalhadores braçais de outros estados, sobretudo do Nordeste brasileiro, submetidos, muitas vezes, a regime análogo ao trabalho escravo.

Nomeado bispo diocesano da cidade de Goiás, em 1967, foi ordenado bispo e ali permaneceu 31 anos, até 1999. Ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se, como simples frade, para o convento dominicano de Goiânia. Seu ministério episcopal coincidiu, por longo tempo, com a ditadura militar (1964- 1985).

Movimentos sociais, como o do Custo de Vida, e a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, contaram com todo o apoio de Dom Tomás, que participou ativamente da criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT], em 1975. Presidiu o C1M1, de 1980 a 1984, e a CPT, de 1999 a 2005. A Assembleia Geral da CPT, em 2005, o nomeou conselheiro permanente.

Agora, seu corpo está enterrado na catedral de Goiás. E seu exemplo de vida perdura na memória de todos que conheceram um homem fiel à proposta do Evangelho de Jesus.

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Testemunho da Pastora Metodista Nancy Cardoso Pereira

Dom Tomás fazia parte do mundo dos homens com poder no cristianismo: era bispo, parte da hierarquia… viveu as contradições do século XX e ao século XXI e usou seu lugar de poder para criar condições para que outros e outras falassem, para que fossem ouvidos: indígenas, camponeses e camponesas, quilombolas. pequenos e pequenas agricultores, ribeirinhos e ribeirinhas, jovens lideranças. Soube usar seu lugar de poder com sabedoria e ousadia, viveu intensamente todas as tomadas de posição que nos reuniriam num projeto maior que anuncia novos jeitos de ser igreja e mais que isto, um novo tempo da terra sem males. De Dom Tomás podemos dizer:

“Quando aumenta a repressão, muitos desanimam. Mas a coragem dele aumenta. Organiza a luta peio salário, pelo pão e pela conquista do poder. Interroga a propriedade: De onde vens?  Pergunta a cada ideia:

Serves a quem? AH onde todos calam, ele fala. E onde reina a opressão e se acusa o destino, ele cita os nomes.” (Bertold Brecht)

Convivi com Dom Tomás nas lidas da CPT e sua presença, firmeza e fidelidade eram como a sombra de uma frondosa árvore que nos reunia em nossa aprendizagem de ser pastoral, em nossa aprendizagem de profecia.

Uma vez, no interior de São Paulo, num despejo de um acampamento nos arredores de Americana, a polícia não nos deixava passar. Tínhamos saído para reunir alimentos e agora… nós e a comida estávamos ali, barrados. Pedi para falar com o Comandante da operação. Insisti. Consegui ser atendida e disparei todos os meus argumentos: a comida, as crianças, a negociação e os direitos humanos… nada funcionava! eu repetia: “sou da CPT”.

Quando ele por um momento ouviu o que eu dizia me perguntou: “CPT de Dom Tomás?” – “Sim!” – eu confirmei assustada. O Comandante disse: -“conheci Dom Tomás numa operação em São Paulo. Você trabalha com ele?” – “Sim!” e imediatamente virei as folhas da agenda da CPT procurei o nome de Dom Tomás e rapidamente disquei no celular. -“Alô Dom Tomás, sou eu, Nancy. Estamos aqui numa tentativa de despejo de uma comunidade, queremos entrar com alimentos e fomos impedidas… o Senhor pode falar com o Comandante?” – falei ofegante. Me virei para o homem e disse: – “Dom Tomás quer falar com você”… e passei o celular! Foi isso.

Entramos: nós e a comida. Nunca soube o que eles conversaram… entrei e fui fazer minha tarefa sabendo que eu não estava sozinha, que eu fazia parte de um esforço maior, de uma voz poderosa e de profunda fidelidade evangélica.

Agradeço a Deus e à vida pela oportunidade de convivência, pela partilha de conflitos e esperanças, pela CPT como espaço e beleza, desafio e fidelidade ao Deus dos pobres e aos pobres da terra. Dom Tomás continua sombra frondosa e acolhedora.

Convocação para a reunião preparatório do Jubileu Dominicano (2016 – 2017)

por Frei Mariano Foralosso

Caros irmãos e irmãs da Família Dominicana

A celebração do Jubileu da Fundação da Ordem está se aproximando. Esta celebração pertence a toda a Família Dominicana do mundo, também do Brasil. O Jubileu está sendo preparado por um ‘Novenário’ que começou em 2006. Em cada ano deste longo período está sendo proposto um tema de estudo e reflexão,
focalizando um ou outro aspecto de nosso carisma, e também aprofundando o conhecimento de um ramo específico da Família Dominicana. Este ano de 2014 o
Novenário focaliza a realidade dos Leigos dominicanos e sua missão própria, como ‘leigos pregadores’. As fraternidades Leigas estão organizando um Congresso,
aberto a todos os leigos dominicanos de America Latina e Caribe. O Congresso será celebrado em Lima (Peru) de 15 a 18 de Setembro. Nele poderão participar
todos os leigos/as ligados à Ordem e os demais membros da Família Dominicana.

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A celebração do Jubileu Dominicano no Brasil: já é tempo de trabalharmos para sua organização. Por parte dos frades, no último Capítulo de Província, eu (frei Mariano) fui nomeado ‘promotor do Jubileu, com a tarefa de articular reuniões e iniciativas, em colaboração com outros membros da Família Dominicana.  Então, mãos á obra! A primeira iniciativa, indispensável, é de convocarmos uma reunião de representantes dos vários grupos e articulações da Família Dominicana, para começarmos a pensar e planejar juntos.

Vai então a convocação:

Reunião ampliada para preparação do Jubileu Dominicano

Data: sábado 14 de Junho

Horário: a partir das 14h30

Local: Paróquia São Domingos em Perdizes

Convocados: representantes dos vários grupos e articulações da Família Dominicana do Brasil  e demais membros interessados

Objetivo da reunião:

  • Refletirmos juntos sobre a importância e os objetivos da celebração do Jubileu
  • Avaliarmos as propostas para o Jubileu enviadas pelo Mestre da Ordem
  • Levantarmos propostas operativas para a celebração do Jubileu no Brasil

Contato:

Frei Mariano Foralosso (convento das Perdizes – São Paulo)
Tel. (11) 3864.0844 ramal 218

Cel. (11) 98443.6335 (Tim)
e-mail: marianoforalosso@uol.com.br

Pedimos para confirmar presença na reunião com Frei Mariano

O  Mestre da Ordem, frei Bruno Cadorè falou sobre a vocações do leigo na ordem, ao escrever sobre o jubileu, uma vez que tido ano a Família Dominicana reza um tema, afim de se aprofundar, corrigir, potencializar práticas e avaliar a missão. Para conferir o texto, clique aqui.